Em 2007 foi criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Mundial de
Conscientização sobre o Autismo, comemorado em 2 de abril. O objetivo é a difusão e a
redução do preconceito e a melhoria da qualidade de vida das pessoas com Transtorno
do Espectro Autista (TEA).
Para celebrar essa data, Organizações comunitárias, sociais e artísticas, redes
voluntárias de apoio e familiares, inspiram por seus movimentos e ações focados na
integração e valorização de crianças, jovens e adultos com diagnóstico de autismo em
espaços de convivência artístico e cultural em Cuiabá – Mato Grosso. Cinthia Mattos,
psicóloga, ressalta que um dos pontos mais importantes na temática, além do acesso a
tratamentos e educação adequada, é a urgência de reconhecer a diversidade dentro do
espectro autista e respeitar as diferentes formas de existência.
Para entender como esse cenário vem sendo construído, conversamos com
algumas pessoas sobre como se busca a mudança de paradigmas e ruptura de estigmas
e preconceitos a partir do acolhimento e da presença de pessoas autistas em ambientes
distintos, em especial, em atividades artístico-culturais.
No maior bairro de Cuiabá
No maior bairro da capital de Mato Grosso, o Pedra 90 (cerca de 23.917
moradores segundo o IBGE), o Instituto Cultural Casarão das Artes tem se conectado a
famílias e outras Instituições que desenvolvem atividades de acolhimento e formação que
envolvam pessoas com diagnóstico de autismo. Vini Hoffman, um dos criadores do
Casarão das Artes em 2013, explica que o Espaço mantém hoje, doze atividades de
formação artístico-cultural, uma feira de economia criativa, cineclube todos os domingos,
biblioteca comunitária, lanche e bolsa para os alunos regulares, tudo ofertado para a
comunidade e seu entorno, inclusive para aquelas pessoas com diagnóstico de
Transtorno de espectro autista e outras deficiências.
O Casarão se mantém com patrocínios e doações e hoje conta com alguns
apoiadores como o Edital de Fortalecimento Institucional da Fundação André e Lucia
Maggi (FALM), de e leva para a periferia da capital, atividades que muitas vezes só
acontecem em bairros mais próximos do centro da cidade. Vini explica que frequentam as
atividades, crianças e jovens diagnosticados como autistas e graças a parceria com
outras instituições de apoio às famílias atípicas, a frequência vem sendo mantida nos
últimos anos, embora a flutuação de alunos aconteça, muitas vezes devido à dificuldade
de deslocamento e a agenda dos pais, que precisam se desdobrar para o atendimento
dos filhos.
Gabriela Silva é uma das mães atendida pelas atividades do Casarão e se orgulha
em lembrar que a filha está no espaço cultural desde a oferta de cursos e oficinas. Ela
conta que é mãe de duas filhas, uma de 7 anos e a outra de 6 anos, que é Autista nível 2
de suporte. Como aluna regular das atividades, a filha mais velha, faz aulas no Casarão,
sempre acompanhada da mais nova, que já demonstra grandes mudanças desde que
começou a frequentar o espaço. “Ela era bem mais rígida, só chorava , não se
aproximava das crianças, não permitia contato físico, não ficava perto da caixa de som
por conta da música. Hoje já é super tranquila lá, muito raro o dia em que ela vai chorar
por algo que a fez desregular; ela é super apegada as “tias” do Casarão, permite algumas
crianças pegar em sua mão”, explica Gabriela.
Para ela, o acolhimento feito pela equipe do espaço e a maneira como atuam junto
aos familiares e aos alunos com Transtorno do espectro autista é um diferencial para a
qualidade de vida e bem estar de todos os envolvidos. “O acolhimento do Casarão é especial, pessoas maravilhosas, nos acolheram muito bem. Tenho certeza que quanto
mais ela estiver ali, diante de todos, tendo esse acolhimento, irá evoluir muito mais, claro
que dentro das suas possibilidades”, finaliza.
Autismo entre indígenas
Deficiências entre pessoas indígenas geram muitas especulações, devido a
processos culturais e históricos dos diferentes povos originários. Pensando na abordagem
da temática, a Casa Vítuka, espaço de formação artística e cultural, realizou uma sessão
de vídeo com apoio de especialistas da área médica, para falar do tema. A iniciativa faz
parte do Projeto Casa Vítuka – espaço multiuso, aprovado no Edital Batelão, da
Secretaria de Lazer, esporte e cultura de Cuiabá. O disparador das conversas foi o vídeo
Kaimanepá, produzido pela jornalista Helena Corezomaé, que traz a narração de Isaac
Amajunepá, seu marido, acerca de Kaimanepá, filho do casal.
O casal que pertence ao povo indígena Balatipone/Umutina (Barra do Bugres –
MT), conta um pouco sobre seu percurso de pais atípicos e as relações culturais
desenvolvidas por Kaimanepá na cidade e na aldeia. A sessão de vídeo ajudou os
presentes a perceberem que existem no país mais de 300 povos indígenas, com
processos culturais diferentes, o que levou a refletir como cada situação é abordada de
maneira diferente em cada povo indígena e também na cidade.
Quando questionado sobre a educação indígena e a forma como ele e a esposa lidam
com as demandas do filho, Isaac relembra que na sua infância, ficava a maior parte do
tempo com a mãe, e quando seu pai não estava caçando, ele e os irmãos iam para a roça
com ele plantar ou fazer garapa. Ele replica esse aprendizado com o filho, o levando para
pescar e para a roça, onde retiram mandioca.
Lembra também o cuidado especial que a mãe tinha com os filhos e o trajeto que faziam
para realizar vendas ou trocas de artesanias na cidade. “Essa relação de um cuidar do
outro ou de se preocupar é muita do viver indígena, de morar na aldeia, de conhecer todo
mundo, de brincar no final da tarde. Essa relação é construída na infância, muito diferente
da cidade”, explica ele.
Issac conta que ao receber o diagnóstico do filho, precisou ser forte para fortalecer
a família, já que seria necessário oferecer as terapias e cuidados necessários à
Kaimanepá. “Tudo isso pesou muito na balança, porque a gente não tinha uma estrutura
financeira para poder cuidar do Kaká. Éramos apenas dois estudantes, eu ainda cursando
engenharia e ela terminando o mestrado, nos mantínhamos com bolsa de estudos e
diárias que eu fazia a noite como garçom na pizzaria”, frisa ao mencionar que os
tratamentos são caros e às vezes inacessível para famílias com baixa renda.
Diante da situação, o casal optou por Helena continuar trabalhando e Isaac realizar os
cuidados diários e encaminhamentos que Kaimanepá necessita, como terapias, escola,
entre outras atividades.
“Hoje estamos mais preparados do que antes e com a consciência de que teremos em
casa uma eterna criança, pura, sem maldade alguma do mundo e feliz do jeitinho dele. O
kaká faz terapias de segunda a quinta, é muito puxado, então a gente vai pra aldeia
apenas no final de semana, mas sempre levo ele pra pescar no rio. Ele ama ir na casa da
minha mãe, sabe que lá tem o balanço dele e uma roça no quintal, porque ele tem uma
ligação muito forte com plantas e peixes e é um menino amado por todos da família”,
encerra Issac.