Desafios da Educação: OrCam MyEye 2.0 NÃO pode substituir o material didático em braille

OPINIÃO

  • * Por Beto Pereira

Crianças e adolescentes com deficiência visual de todo o país ainda não receberam os livros adaptados para o ano letivo

Estamos preocupados com a iniciativa de algumas prefeituras e governos estaduais do país, que estão alocando recursos para investir em tecnologias de alto custo para apoiar a educação de crianças e adolescentes cegos e com baixa visão de todo o país. É o caso do “Óculos falante”, o OrCam MyEye, que custa em média R$ 16 mil.

Essas aquisições ocorrem enquanto materiais essenciais como bengalas, óculos, lupas e materiais didáticos em braille não são fornecidos adequadamente, seja por falta de planejamento ou de organização logística dos governos, prejudicando significativamente o processo de aprendizagem de centenas de alunos com deficiência visual.

O braille permite acesso direto à gramática, grafia e símbolos matemáticos, enquanto materiais ampliados ajudam aqueles com baixa visão a exercitar sua capacidade visual remanescente. Usar recursos inadequados compromete esse aprendizado e representa riscos adicionais.

Para que isso não aconteça, as instituições públicas devem incluir especialistas e representantes das comunidades da deficiência visual em todo o processo de compra e implementação de recursos para garantir a eficácia do que será utilizado em sala de aula.

O uso do OrCam MyEye 2.0, especialmente na fase de alfabetização, é considerado inadequado porque não permite o contato direto com a estrutura linguística e símbolos essenciais para um aprendizado completo. O dispositivo, embora útil em certos contextos, é limitado em funcionalidades cruciais na educação.

Investir em tais ferramentas pode levar ao desperdício de recursos públicos e promover a discriminação e capacitismo, além de valorizar apenas a imagem pública dos gestores ao invés de atender a real necessidade inclusiva dos estudantes.

Uma revisão aprofundada sobre investimentos em tecnologias, a inclusão de critérios rigorosos de avaliação e a participação ativa de todos os stakeholders relevantes, incluindo as próprias crianças e adolescentes com deficiência visual, é uma saída.

Instituições como a Organização Nacional de Cegos do Brasil, que representa dezenas de órgão do país, como a LARAMARA, Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual, têm desempenhado um papel ativo na denúncia de práticas inadequadas e na promoção de políticas mais inclusivas e efetivas.

Através de campanhas de conscientização e participação em conselhos e conferências nacionais, lutamos por uma verdadeira inclusão que respeite as necessidades e os direitos dos estudantes com deficiência visual.

Por fim, a educação inclusiva no Brasil enfrenta desafios significativos, porém, com a implementação de políticas adequadas e o compromisso das instituições e da sociedade civil, podemos avançar para o desenvolvimento eficaz e equitativo das nossas crianças e adolescentes cegos e com baixa visão.

*Beto Pereira é consultor em inclusão, acessibilidade e diversidade humana da LARAMARA — Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual, e Presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil – ONCB.

ESSE ARTIGO EXPRESSA SOMENTE E APENAS A OPINIÃO DO SEU AUTOR.

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