Lak Lobato: Inclusão e Empatia

* Por Jairo V. Bianeck

Lak Lobato, escritora, palestrante e comunicadora brasileira, é uma pessoa com deficiência. Surda desde os 9 anos, ela recuperou a audição após 26 anos com implantes cocleares bilaterais. Sua trajetória é marcada não apenas pelos desafios que enfrentou, mas pela determinação em transformá-los em um propósito de vida. Hoje, Lak dedica-se à inclusão de surdos oralizados que utilizam a língua portuguesa, promovendo conscientização e empatia.

Aos 9 anos, Lak perdeu a audição de forma súbita. Naquele tempo, o sistema educacional brasileiro carecia de adaptações para pessoas com deficiência, e a inclusão era uma ideia distante. Mesmo assim, com determinação, ela aprendeu sozinha a ler lábios e manteve o uso da voz como sua principal forma de comunicação.

Apesar de se destacar como a melhor aluna da turma, enfrentou exclusões dolorosas, como a ausência em festas de 15 anos e a impossibilidade de ser oradora da formatura. Quando chegou ao vestibular, mais um obstáculo surgiu: ela precisou improvisar, sem informar sua condição, para se adaptar às instruções.

Já na faculdade, o preconceito era evidente. Professores e colegas não compreendiam sua surdez, o que ampliava seu isolamento. Somente com a chegada da internet, Lak encontrou um espaço para criar vínculos e construir amizades, rompendo com a solidão que tanto a acompanhou.

Após se formar, outro desafio apareceu: o mercado de trabalho. Levou cinco anos para conseguir o primeiro emprego, não por falta de qualificação – Lak sempre teve competência de sobra – mas pela resistência estrutural em contratar pessoas com deficiência. Mesmo assim, foi contratada apenas por força da lei de cotas.

As promoções, no entanto, não vinham, e cada avanço profissional exigiu mudanças de emprego e esforços redobrados. Cada conquista foi uma batalha vencida com coragem e resiliência.

Em meio a tantos desafios, Lak transformou sua dor em propósito. Ela passou a compartilhar sua vivência como surda oralizada, desmistificando preconceitos e mostrando que há múltiplas formas de existir. Hoje, sua luta é pela inclusão e pela empatia, iluminando os desafios enfrentados por pessoas com deficiência em um mundo que muitas vezes marginaliza suas vozes.

Uma cena em um aeroporto exemplifica a dificuldade cotidiana. Ao utilizar o cordão girassol, símbolo internacional de deficiências ocultas, para acessar a fila preferencial, Lak ouviu um comentário que refletia ignorância e preconceito: “Que babaquice, sua deficiência não é nada.” Essa frase, impregnada de desprezo, revela o quanto ainda precisamos evoluir como sociedade.

A história de Lak Lobato é um chamado à ação. Ela nos lembra que a inclusão não é um privilégio, mas uma questão de justiça. Sua luta demonstra que, para construirmos uma sociedade verdadeiramente humana, precisamos de mudanças concretas e coletivas.

Educação inclusiva desde a infância, oportunidades reais no mercado de trabalho, campanhas de conscientização e políticas públicas robustas são passos fundamentais para eliminar as barreiras que excluem tantas pessoas. Além disso, cada um de nós pode contribuir cultivando empatia e respeito em nossas atitudes diárias. Lak Lobato nos mostra que a transformação já começou – em cada gesto, em cada palavra, em cada escolha. Sua trajetória nos inspira a acreditar em um futuro onde as diferenças sejam celebradas e não discriminadas. Que sua história ecoe como um lembrete de que a mudança está ao nosso alcance

* Jairo Varella Bianeck é Advogado e um dos Coordenadores Jurídico da Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência (ANAPcD).

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