O impacto das férias escolares no tratamento de crianças com câncer. Longe da escola, famílias enfrentam mudanças na rotina, sobrecarga emocional e desafios logísticos que podem afetar a adesão ao tratamento oncológico infantil no Brasil
Para a maioria das crianças, férias escolares significam descanso e diversão. Para quem enfrenta o câncer, o recesso costuma trazer um desafio adicional a uma rotina que já é intensa. A quebra dos horários, a ausência da escola e a reorganização da vida familiar impactam diretamente o tratamento e o bem-estar emocional de crianças e responsáveis.
Todos os anos, cerca de 8 mil novos casos de câncer infantojuvenil são diagnosticados no Brasil. Em muitos deles, o tratamento acontece longe da cidade de origem, exigindo longos deslocamentos e permanência próxima aos hospitais. Durante as férias escolares, a ausência da escola altera horários e, muitas vezes aumenta o desgaste emocional de todos os envolvidos.
É o caso de Sueli, mãe de Henrico, de 15 anos, em tratamento contra linfoma de Hodgkin.
Moradores do interior de São Paulo, mãe e filho precisaram deixar a cidade de origem para iniciar o tratamento, que começou no final de outubro. Há cerca de dois meses, a família vive uma rotina longe de casa, período que coincidiu com o encerramento do ano letivo e a chegada das férias escolares.
“No começo, a gente não tem noção de quanto tempo o tratamento vai durar. O mais importante é começar. Depois, aos poucos, você vai tentando se organizar”, conta Sueli. A escola foi uma preocupação desde o início. Para que Henrico não perdesse o ano, ele passou a realizar atividades de forma online, com apoio da equipe escolar. “A escola faz parte da vida da criança. Mesmo à distância, manter os estudos ajuda a dar continuidade à rotina.”
Além do aprendizado, a escola teve um papel importante no emocional do adolescente. “O diagnóstico é um baque. Você sai de uma rotina normal e, de repente, tudo muda. Ficar longe da sala e dos colegas é difícil, mas as aulas online e o contato com os professores ajudaram a distrair e manter a cabeça ocupada”, explica. Henrico também segue em contato com os amigos por mensagens e jogos, o que ameniza a sensação de isolamento.
Na família, o impacto também atinge o irmão mais velho, de 21 anos, que permaneceu na cidade de origem. “Claro que afeta, mas de uma forma diferente. A gente conversa todos os dias, mas o mais difícil é ficar longe de casa e de todo mundo”, relata Sueli.
Com a chegada das férias escolares, o desafio aumenta. “Quando tem aula, ainda existe uma convivência, mesmo que online. Nas férias, tudo fica mais quieto. A gente precisa manter o foco no tratamento, porque se parar para pensar demais, fica mais difícil continuar”, afirma. Para ela, manter os estudos durante o tratamento ajudou o filho a enfrentar o diagnóstico. “A palavra câncer é muito pesada. A escola ajuda a manter um pouco da normalidade e da esperança.”
A escola exerce um papel que vai além do aprendizado. Para muitas crianças em tratamento, ela representa vínculo social, previsibilidade e sensação de normalidade. A ausência desse espaço pode intensificar sentimentos de isolamento e ansiedade, especialmente quando o tratamento segue ativo. Para os responsáveis, as férias significam mais tempo no hospital, mais gastos e maior sobrecarga emocional.
Segundo Bianca Provedel, CEO do Instituto Ronald McDonald, o período de férias evidencia o quanto o tratamento oncológico infantil exige suporte contínuo que vá além da assistência médica.
“O tratamento não entra em recesso. As famílias precisam manter consultas, exames e terapias enquanto lidam com a ausência da escola, o cuidado com outros filhos e a própria exaustão emocional. Sem apoio, esse equilíbrio se torna muito difícil”, afirma.
As unidades dos Programas Casa Ronald McDonald e Espaço da Família Ronald McDonald desempenham um papel central nesse período. As Casas acolhem famílias que precisam permanecer próximas aos hospitais, oferecendo hospedagem, alimentação, transporte e apoio psicossocial, o que permite que a criança siga com o tratamento sem interrupções, inclusive durante as férias escolares. Já os Espaços da Família, localizados dentro de hospitais, oferecem áreas de descanso, alimentação e convivência, reduzindo o desgaste das longas jornadas hospitalares.
“Quando oferecemos acolhimento, ajudamos a família a atravessar períodos mais sensíveis, como as férias, com mais estabilidade. Isso reflete diretamente na continuidade do tratamento e na qualidade de vida da criança”, destaca Bianca.
O período de férias escolares também evidencia a necessidade de políticas públicas que considerem o cuidado integral de crianças em tratamento oncológico. Saúde, educação e assistência social ainda caminham de forma pouco integrada, o que amplia as dificuldades enfrentadas pelas famílias fora do ambiente hospitalar.
Para o Instituto Ronald McDonald, garantir o acesso ao tratamento passa também por políticas que reconheçam o impacto social da doença, assegurem apoio à família cuidadora e ofereçam alternativas educacionais e de acolhimento durante períodos prolongados fora de casa. A experiência da organização mostra que investir em acolhimento e suporte reduz o risco de abandono do tratamento e promove mais equidade no acesso à saúde.
Sobre o Instituto Ronald McDonald
Organização social sem fins lucrativos, o Instituto Ronald McDonald atua, há mais de 26 anos, para promover a saúde e bem-estar de crianças e adolescentes, aumentando as chances de cura do câncer infantojuvenil. Para atingir esse objetivo, o Instituto Ronald McDonald trabalha promovendo programas ligados à capacitação de profissionais e estudantes de saúde ao diagnóstico precoce, estruturação de hospitais especializados, a hospedagem para famílias que residem longe dos hospitais, e projetos que visem a disseminação de conhecimento sobre a causa. A ONG faz parte do sistema beneficente global Ronald McDonald House Charities (RMHC), presente em mais de 60 países, coordenando os programas globais: Casa Ronald McDonald, voltado para a hospedagem, transporte e alimentação dos pacientes; e o Programa Espaço da Família Ronald McDonald, que torna menos desgastante o dia a dia das famílias durante o tratamento. No Brasil, há ainda outros dois programas locais: Atenção Integral e Diagnóstico Precoce, com ações específicas de combate ao câncer infantojuvenil. O Instituto conta com o apoio de diversas empresas e pessoas físicas para desenvolver e manter seus programas. Saiba mais sobre os programas e as instituições beneficiadas em www.institutoronald.org.br.




