OPINIÃO
- Por Igor Lima
O sofrimento que permanece invisível
Enquanto a sociedade discute direitos das crianças com deficiência, o sofrimento das mães atípicas permanece quase invisível. São mulheres que dedicam suas vidas ao cuidado integral de filhos com Transtorno do Espectro Autista, outras deficiências ou condições de neurodesenvolvimento, enfrentando jornadas extenuantes, isolamento social e abandono familiar. Essas mulheres carregam um peso que a legislação brasileira reconhece de forma limitada: a criança tem direitos garantidos, mas quem dedica a vida a proteger esses direitos muitas vezes adoece sem que ninguém perceba.
O silêncio que adoece
Estudos mostram que mães atípicas apresentam níveis de estresse e sintomas depressivos muito superiores aos de mães de crianças com desenvolvimento típico, resultado de pressão familiar, julgamentos sociais e isolamento contínuo. Em muitas casas, a rotina da mãe é moldada pelo cuidado integral: adaptações físicas são necessárias para a segurança da criança, tomadas inacessíveis, reorganização de móveis, barreiras em corredores. Cada crise da criança, cada sessão terapêutica, cada desafio escolar repercute diretamente na saúde física e emocional da mãe. Muitas vezes, o sofrimento se intensifica porque a sociedade e até a família evitam a criança, por considerá-la “diferente”, aumentando a solidão, o constrangimento e a culpa materna. Em situações extremas, mães podem sofrer agressões involuntárias do próprio filho, sem poder delegar responsabilidades ou encontrar respiro.
Abdicação de carreira e direitos invisíveis
Essa dedicação extrema frequentemente leva à abdicação da própria carreira e projetos pessoais. Muitas mães atípicas abandonam trabalhos ou reduzem jornadas profissionais, sacrificando renda, crescimento e oportunidades, enquanto lidam com o peso de sustentar uma rotina que exige disponibilidade emocional e física total. A sociedade espera que “superem” sozinhas, sem apoio, e isso torna o adoecimento ainda mais profundo.
Casos relatados por coletivos de mães atípicas indicam mulheres que passam meses sem atendimento psicológico, vivem isoladas e sem redes de apoio, lidando com sentimentos de culpa e esgotamento extremo. Essas experiências reforçam um quadro invisível de sofrimento: enquanto lutamos por políticas públicas voltadas à criança, quem adoece primeiro é a mãe. E, em casos extremos, quem chega ao fim da própria vida em silêncio é a política pública.
Redes de apoio como fator de proteção
Redes de apoio, quando existentes, funcionam como fatores de proteção fundamentais. Grupos de mães, coletivos e organizações civis oferecem acolhimento, orientação jurídica e suporte psicológico, mas ainda operam de forma fragmentada. Estudos indicam que a presença de redes de apoio reduz significativamente os níveis de estresse, depressão e risco de adoecimento grave, mostrando que o cuidado com a mãe é tão essencial quanto as terapias e serviços oferecidos à criança.
Legislação e lacunas legais
Do ponto de vista legal, a Constituição Federal, a Lei Berenice Piana e o Estatuto da Pessoa com Deficiência reconhecem direitos da criança e da pessoa com deficiência, incluindo acesso à educação, saúde e inclusão social. No entanto, esses dispositivos não tratam diretamente da proteção da mãe cuidadora, que permanece em grande parte invisível. O Sistema Único de Saúde garante atendimento à criança, mas falha em oferecer suporte contínuo e estruturado à mãe. Projetos de lei em tramitação, que propõem auxílio financeiro, flexibilização de jornada e programas de suporte psicossocial, mostram que o debate começa a avançar, mas a implementação ainda é lenta e desigual.
Caminhos para transformação
Para transformar essa realidade, é urgente reconhecer a mãe atípica como sujeito de direitos, oferecer suporte psicológico contínuo, criar redes de acolhimento profissional e comunitário e integrar políticas públicas entre saúde, educação e assistência social. Cuidar de quem cuida significa prevenir adoecimento, fortalecer famílias e construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
“Enquanto a sociedade olha para a criança, a mãe que luta diariamente por ela muitas vezes permanece invisível. Cuidar dela é cuidar do futuro de todos.”
Dar visibilidade ao invisível
O fim da própria vida de mães atípicas é um alerta: não podemos mais ignorar a sobrecarga, a exclusão social e o sofrimento que essas mulheres enfrentam em silêncio. Dar visibilidade, oferecer apoio e fortalecer políticas públicas não é apenas uma questão de justiça — é uma questão de dignidade, empatia e humanidade.

- Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.
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NOTA DO AUTOR: Dedico este texto à minha mãe, Rogeria, que hoje celebra mais um ano de vida.
Seu amor, sua força silenciosa e sua capacidade de cuidar mesmo nos dias difíceis são a minha maior referência de humanidade. Se escrevo sobre cuidado, dignidade e resistência, é porque aprendi com você, na prática, o que essas palavras realmente significam.
Feliz vida, mãe. Que você receba em dobro todo o amor, a luz e o amparo que sempre ofereceu a mim. Você é meu porto seguro, meu exemplo e meu maior orgulho




