OPINIÃO
- * Por Dr. Ademar Santos – Inspiração Marta Almeida Gil
Quando a água sobe, o fogo avança ou a terra cede, o tempo deixa de ser um aliado.
Em situações de desastre, cada minuto separa a vida da morte.
Ainda assim, há pessoas que, mesmo antes da sirene tocar, já estão em desvantagem.
Pessoas com deficiência costumam enfrentar a emergência não apenas contra a força da natureza, mas contra a invisibilidade social que as acompanha há décadas.
As tragédias recentes no Rio Grande do Sul e no Pantanal escancararam essa realidade.
Helicópteros sobrevoaram cidades submersas, voluntários atravessaram ruas alagadas, imagens circularam em velocidade vertiginosa.
Pouco se falou, porém, sobre quem não escuta o alerta sonoro, quem não consegue se locomover sozinho, quem depende de apoio contínuo para sobreviver.
O silêncio sobre essas vidas não foi casual.
Ele revela uma falha estrutural.
A leitura do artigo “Resgate inclusivo, deficiências e desastres climáticos”[1], de Fernanda Martins Gutierrez, provoca desconforto porque nomeia aquilo que muitos preferem ignorar.
A ausência de protocolos específicos para o resgate de pessoas com deficiência não é um lapso técnico.
É uma escolha política.
Quando não se planeja, aceita-se o risco de perder essas vidas primeiro.
O conceito de resgate inclusivo rompe com a lógica da improvisação heroica.
Ele exige planejamento, acessibilidade, escuta das próprias pessoas com deficiência e formação adequada das equipes de emergência.
Exige reconhecer que cerca de 15 por cento da população vive com algum tipo de deficiência e que mulheres com deficiência enfrentam riscos ainda maiores em contextos de desastre.
Ignorar esses dados é normalizar a exclusão em seu grau mais extremo.
O Projeto Resgate Inclusivo, idealizado por Marta Almeida Gil, surge como um alerta necessário.
Não se trata de caridade, nem de favor.
Trata-se de direitos humanos.
Quando um plano de evacuação não considera diferentes corpos, quando a informação não chega em formatos acessíveis, quando o abrigo não acolhe, o desastre deixa de ser apenas natural e passa a ser socialmente produzido.
Há também uma responsabilidade que recai sobre a mídia e sobre todos nós.
O que não é narrado não gera indignação.
O que não comove não mobiliza.
A invisibilidade mata de forma lenta, mas eficaz.
Este texto nasce da leitura indicada por Marta Almeida Gil, a quem registro meu agradecimento pela provocação e pelo compromisso ético com a inclusão.
A reflexão proposta por Fernanda Martins Gutierrez não permite neutralidade.
Diante da crise climática, ou se planeja de forma inclusiva, ou se aceita que algumas vidas continuem sendo consideradas descartáveis.
Resgate inclusivo não é um detalhe.
É a linha que separa o socorro da omissão.
É um aviso que não pode mais ser ignorado.
- * Artigo originalmente publicado em: https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:7423381440073007105/?commentUrn=urn%3Ali%3Acomment%3A(activity%3A7423381440073007105%2C7423395803982954496)&dashCommentUrn=urn%3Ali%3Afsd_comment%3A(7423395803982954496%2Curn%3Ali%3Aactivity%3A7423381440073007105)
* Dr. Ademar Santos – Professor e Pesquisador em Políticas Públicas Educacionais. Vice-presidente da ANIDE – Associação Nacional de Inclusão e Diversidade na Educação
* Marta Almeida Gil – Socióloga, fundadora e coordenadora do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas (1989), referência na inclusão de pessoas com deficiência. Concebeu e coordena o projeto Resgate Inclusivo




