Em entrevista ao portal Brasil 247, a socióloga comenta sobre à criação de um instituto que transforma informação qualificada em inclusão social
Matéria originalmente publicada em https://www.brasil247.com/empreender/empreendedorismo-social-combate-a-desinformacao-sobre-pessoas-com-deficiencia, pela jornalista Beatriz Bevilaqua
Empreender, para Marta Gil, nunca foi sinônimo de abrir uma empresa em busca de lucro. É, antes de tudo, um compromisso ético com a vida, com a dignidade humana e com o direito de existir em igualdade. Socióloga, fundadora e coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, Marta construiu uma trajetória singular no campo do empreendedorismo social brasileiro, onde a informação de qualidade se transforma em ferramenta concreta de inclusão.
Marta atua há décadas na produção, comunicação e disseminação de informações sobre educação, trabalho, acessibilidade e direitos humanos. Mas sua conexão com esse campo não nasceu de um projeto acadêmico, nasceu da vida. Criada em uma família onde a deficiência nunca foi tratada como tabu, ela conviveu desde cedo com uma tia com síndrome de Down e com o pai, uma pessoa com deficiência física que construiu uma carreira sólida e se aposentou com autonomia e reconhecimento.
Em uma época em que muitas famílias escondiam seus filhos por vergonha ou desinformação, sua experiência foi marcada pela naturalização da diferença e pela quebra cotidiana de preconceitos. “Eu brinco que a cegonha que me deixou já veio com essa missão”, conta.
Essa vivência moldou a essência do Amankay, um instituto que não presta atendimento direto, mas atua onde muitos projetos falham: na produção e circulação de informação que realmente orienta a ação. “Não adianta dizer que existe uma escola inclusiva se você não informa onde ela fica, se é pública ou privada, se tem acessibilidade”, explica. Para Marta, informação só cumpre seu papel quando é precisa, contextualizada e acessível, especialmente em um cenário atravessado por desinformação e fake news.
O modelo de atuação do instituto reflete essa lógica: trabalho por projetos, equipes formadas conforme a demanda, rigor técnico, transparência e uma contabilidade especializada no terceiro setor.
Em 2024, durante as enchentes no Rio Grande do Sul. Enquanto a cobertura midiática se concentrava em imagens dramáticas da destruição, uma pergunta passou a ecoar: onde estavam as pessoas com deficiência? Como estavam sendo resgatadas? Para onde estavam sendo levadas?
A ausência de respostas revelou uma exclusão ainda mais profunda. Pessoas cegas separadas de suas bengalas, cadeirantes sem acesso às próprias cadeiras de rodas, abrigos improvisados sem acessibilidade mínima, banheiros inadequados, falta de protocolos e preparo. Pessoas salvas, mas privadas de autonomia, dignidade e direitos básicos.
Dessa inquietação nasceu o projeto Resgate Inclusivo, uma iniciativa que articula pesquisa, informação e advocacy para inserir a perspectiva da deficiência nas políticas de resposta a desastres climáticos. Após um período de trabalho voluntário, escuta ativa e diálogo com especialistas como Defesa Civil, Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras, o projeto agora entra em fase de captação de recursos e ampliação de impacto, com presença nas redes sociais e produção contínua de conteúdos educativos.
Ao olhar para o futuro do empreendedorismo social, Marta aposta em um caminho que une responsabilidade social, sustentabilidade econômica e inteligência coletiva. Para ela, incluir pessoas com deficiência não é apenas uma questão de justiça social, mas também de visão estratégica: são mais de 15 milhões de brasileiros frequentemente ignorados por empresas, produtos e políticas. Um contingente que consome, trabalha, cria e transforma.
Exemplos já existem: cosméticos com embalagens acessíveis, roupas sem botões ou zíperes, produtos pensados para diferentes corpos e movimentos, soluções que beneficiam não apenas pessoas com deficiência, mas idosos, pessoas com limitações temporárias e toda a sociedade. “A deficiência não define a pessoa. Ela é só uma partezinha. A pessoa é muito maior”, resume.
Em um mundo atravessado por crises sanitárias, climáticas e sociais, a trajetória de Marta Gil mostra que empreender pode e deve ser um ato político. Um gesto de cuidado radical com a vida. Um compromisso em olhar menos para a deficiência e mais para a pessoa. Sempre para a pessoa.
Assista à entrevista na íntegra;





