OPINIÃO
- * Por Jairo Bianeck
A forma como uma sociedade trata suas diferenças revela seu verdadeiro grau de civilidade. Em episódios envolvendo a obstrução de espaços de acessibilidade e o uso de linguagem depreciativa direcionada a pessoas com deficiência, não se está diante de meros conflitos individuais, mas de manifestações que evidenciam fragilidades na compreensão coletiva sobre igualdade e dignidade humana. Assim, torna-se imprescindível analisar como determinadas condutas materiais e verbais impactam não apenas indivíduos, mas o próprio tecido social.
Em primeiro plano, a obstrução de rampas e dispositivos de acessibilidade representa mais do que descuido. Tais estruturas existem para concretizar o direito constitucional de ir e vir, garantindo igualdade material àqueles que necessitam de adaptações urbanas. Quando esses espaços são bloqueados, transfere-se à pessoa com deficiência o ônus da imprudência alheia, impondo-lhe barreiras adicionais em um cotidiano já marcado por desafios estruturais. Ainda que a ação possa parecer pontual, seus efeitos simbolizam uma lógica de prioridade invertida, na qual a conveniência momentânea se sobrepõe à inclusão.
Além disso, a linguagem utilizada em situações de tensão social possui dimensão formadora de cultura. Expressões que reduzem alguém exclusivamente à sua condição física ou que ironizam limitações corporais não constituem simples opiniões. Elas reforçam estigmas históricos e perpetuam hierarquias implícitas entre corpos considerados “normais” e corpos considerados “excepcionais”. A palavra, nesse contexto, não é neutra, ela constrói percepções e legitima comportamentos. Portanto, a reflexão não deve recair sobre indivíduos isoladamente, mas sobre a necessidade de amadurecimento coletivo no trato com a diversidade.
Essa dinâmica pode ser comparada, em certa medida, ao funcionamento do programa televisivo Big Brother Brasil. No reality show, interações são amplificadas por câmeras e julgadas instantaneamente pelo público, gerando polarizações rápidas. Entretanto, diferentemente da lógica do entretenimento, a vida social exige mediação institucional e análise responsável. A substituição do debate por julgamentos precipitados não contribui para a evolução social; ao contrário, impede o aprendizado estruturado que situações como essa podem proporcionar.
Diante desse cenário, é fundamental que o Ministério das Cidades, em parceria com prefeituras e órgãos de trânsito, promova campanhas educativas permanentes sobre respeito aos espaços de acessibilidade, utilizando mídias digitais, escolas e centros comunitários como meios de difusão. Paralelamente, instituições de ensino e órgãos públicos devem implementar programas de formação continuada sobre inclusão e linguagem respeitosa, com palestras e oficinas conduzidas por especialistas e representantes da comunidade PcD. Tais medidas visam consolidar uma cultura de respeito, prevenindo reincidências e fortalecendo a consciência cidadã, sempre em consonância com os direitos humanos e com a dignidade da pessoa.
Em síntese, conflitos envolvendo acessibilidade e linguagem revelam desafios ainda presentes na sociedade brasileira. Contudo, quando transformados em oportunidade de reflexão e ação educativa, esses episódios podem impulsionar avanços concretos. Mais do que punir, é preciso compreender, educar e estruturar políticas que garantam que o respeito deixe de ser exceção e se torne regra.

- * Jairo Bianeck é advogado, militante do campo progressista e Defensor dos Direitos das Pessoas com Deficiência
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