OPINIÃO
- * Por Geraldo Nogueira
Prefeito Eduardo Paes foi filmado imitando uma pessoa cega. O fato, por si só, poderia ser tratado como uma brincadeira infeliz. Não me indigna pela imitação em si; poderíamos até recorrer à máxima: “falem mal, mas falem de mim” ou, em tom mais irônico, “imitem mal, mas ao menos lembrem de nós”.
O que realmente preocupa, porém, é a ausência histórica de prioridade com relação às pessoas com deficiência na gestão municipal. Ao longo dos anos em que esteve à frente da Prefeitura do Rio, não se consolidou uma política pública robusta e estruturante voltada à inclusão das PcD.
No campo da acessibilidade urbana, o último grande projeto que enfrentou o tema de forma mais consistente foi o “Rio Cidade”, implementado na gestão do prefeito Cesar Maia. Desde então, os avanços têm sido pontuais e insuficientes diante da dimensão e das necessidades da cidade.
A própria Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência realiza um trabalho reconhecidamente relevante, muito mais pela competência técnica e pelo compromisso de seus servidores e colaboradores do que por uma política prioritária assumida pelo chefe do Executivo. Vale lembrar que a Secretaria nasceu ainda na gestão de Cesar Maia, por iniciativa do então vice-prefeito Otávio Leite.
O atual prefeito, hoje também apontado como pretenso candidato ao Governo do Estado, tem, portanto, uma dívida histórica com esse segmento da população. A recente imitação de uma pessoa cega apenas agrava esse cenário simbólico.
Se a experiência, ainda que momentânea e caricata, serviu para demonstrar as dificuldades enfrentadas por quem vive com deficiência visual, que ela ao menos desperte empatia verdadeira e compromisso concreto. Que o prefeito utilize sua capacidade política e administrativa para estruturar políticas públicas efetivas de acessibilidade, inclusão e garantia de direitos, transformando um episódio lamentável em ponto de inflexão para uma gestão verdadeiramente inclusiva.
*Geraldo Nogueira é Diretor da Pessoa com Deficiência na OAB-RJ.






