Mãe Atípica também precisa de colo: a urgência de uma rede de apoio que ainda não existe

Mãe Atípica também precisa de colo: a urgência de uma rede de apoio que ainda não existe - OPINIÃO - * Por Igor Lima

OPINIÁO

  • * Por Igor Lima

Há um silêncio específico que atravessa a vida de muitas mães de crianças com deficiência ou autismo no Brasil. Não é o silêncio da ausência de amor, é exatamente o oposto: é o silêncio de quem ama tanto que não sobra tempo, nem espaço social, nem permissão emocional para dizer que está exausta. E, quando tentam verbalizar esse cansaço, muitas vezes esbarram numa resposta que fere mais do que ajuda: que é frescura, que toda mãe é cansada, que ela escolheu ser mãe e agora precisa dar conta.

A ciência não corrobora esse discurso. Ela desmente.

Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por Scherer, Verhey e Kuper, publicada na revista PLOS One em julho de 2019, reuniu dezenove estudos internacionais sobre pais de crianças com deficiência intelectual e do desenvolvimento e constatou que, em média, 31% desses pais apresentavam níveis elevados de sintomas depressivos, acima do ponto de corte clínico para depressão moderada, contra 7% entre pais de crianças sem essa condição. O mesmo estudo identificou que a gravidade da deficiência e a menor renda familiar estavam entre os fatores associados a níveis mais altos de sintomas depressivos entre esses pais. Outro estudo publicado na mesma revista, conduzido com base em pesquisa nacional japonesa sobre cuidadores de crianças com deficiência, identificou que o apoio de familiares além do cônjuge, incluindo avós, reduzia os efeitos negativos da deficiência do filho sobre a saúde mental parental, e que a ausência de apoio do cônjuge ou dos avós configurava fator de risco significativo para o adoecimento psíquico do cuidador.

No Brasil, a literatura acadêmica caminha na mesma direção. Artigo publicado na Revista FT, sobre os impactos psicossociais da maternagem atípica, aponta que essas mães vivenciam sobrecarga física e emocional significativa, marcada por sentimentos ambíguos de amor, culpa, exaustão e impotência diante das demandas cotidianas, e que essa sobrecarga está associada à insuficiência das redes de apoio institucional e à fragilidade das políticas públicas voltadas à saúde mental das cuidadoras. Uma revisão sistemática publicada na revista ID on line, de Psicologia, chegou a conclusão semelhante ao identificar, entre as categorias mais recorrentes na literatura sobre mães atípicas no Brasil, a sobrecarga de cuidar, a falta de rede de apoio, as barreiras no acesso aos serviços de saúde e o despreparo das escolas, fatores que acarretam desgaste emocional e comprometem a saúde mental dessas mães.

Esse conjunto de estudos, nacionais e internacionais, converge para um ponto que merece ser dito com todas as letras: o problema não é a maternidade atípica em si. É a ausência estrutural de rede, institucional, familiar e comunitária. Quando essa rede existe, o impacto emocional diminui de forma documentada na literatura científica. Quando não existe, a mãe adoece, silenciosamente, muitas vezes sem sequer perceber que aquilo que sente tem nome, tem causa identificada e tem, principalmente, solução possível.

A Lei Brasileira de Inclusão e a Política Nacional de Saúde Mental já preveem, ao menos no papel, estruturas de apoio às famílias de pessoas com deficiência. Mas a efetividade prática dessas políticas ainda esbarra em limitações concretas, como falta de profissionais especializados e descontinuidade de programas municipais de apoio.

Fica aqui um convite, mais do que uma reflexão: se você é mãe atípica e se reconhece em cada linha deste texto, procure apoio psicológico, procure outras mães que vivam essa mesma realidade, procure associações e grupos de apoio na sua cidade. Pedir ajuda não é fraqueza. É, segundo a própria evidência científica, o fator que mais protege sua saúde mental, e, por consequência, a qualidade do cuidado que você consegue oferecer ao seu filho. Você não precisa sofrer calada. Você precisa, e merece, ser cuidada também.

  • * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, pesquisador e pessoa com deficiência. Com formação complementar em Direitos das Pessoas com Deficiência pela PUC-Rio e em Direito Antidiscriminatório, construiu sua trajetória na interseção entre o Direito, a inclusão e a transformação social.
  • É idealizador e coordenador da coletânea jurídica Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva, obra que reúne 90 autores e contribuições dedicadas aos direitos das pessoas com deficiência, com referências no STF, STJ e TST e presença em instituições como Harvard e a Universidade de Coimbra.
  • Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Sua experiência profissional reúne atuação nos setores público e privado, produção intelectual e participação em iniciativas relacionadas à inclusão, acessibilidade e direitos das pessoas com deficiência.
  • Sua atuação articula conhecimento jurídico, pesquisa, experiência institucional e vivência da deficiência, com foco em direitos das pessoas com deficiência, acessibilidade, políticas públicas e ESG. A partir dessa perspectiva, desenvolve pesquisas, conteúdos e iniciativas que buscam ampliar o debate sobre inclusão e transformar conhecimento em diálogo, participação e mudanças concretas na sociedade e nas instituições.
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