A Crise Invisível: Como as Mudanças Climáticas Ameaçam a Autonomia e a Segurança das Pessoas com Deficiência

A Crise Invisível: Como as Mudanças Climáticas Ameaçam a Autonomia e a Segurança das Pessoas com Deficiência - OPINIÃO - * Por Thierry Cintra Marcondes e Marta Almeida Gil

OPINIÃO

  • * Por Thierry Cintra Marcondes e Marta Almeida Gil

Estamos vivendo a era mais quente da história humana. Dados científicos robustos confirmam que 2023 foi o ano mais quente desde o início dos registros sistemáticos, com temperaturas globais 1,48°C acima dos níveis pré-industriais [1]. Este recorde segue uma tendência alarmante – os últimos nove anos foram os mais quentes já registrados. Ondas de calor extremo não são meramente desconfortáveis; são fatais. Causam fadiga, reduzem a produtividade econômica em até 20% em setores expostos [2] e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS)[3], contribuíram para aproximadamente 489.000 mortes anuais relacionadas ao calor entre 2000 e 2019.

O aquecimento global, no entanto, não se resume ao aumento de temperaturas ou aos termômetros. É um catalisador de eventos extremos: chuvas torrenciais, inundações, ventanias e secas prolongadas, que desestabilizam ecossistemas, economias e, sobretudo, a vida das pessoas mais socialmente vulnerabilizadas.

  1. O Ônus Climático Desigual e a Interseção com a Deficiência

Conceitos cruciais são criados: “ônus climático” e muitos já começam a falar sobre “justiça climática”.

Populações em situação de vulnerabilização socioeconômica são as primeiras e as mais gravemente impactadas.

No entanto, há um grupo ainda mais negligenciado: são as mais de 1,3 bilhão de pessoas com deficiência no mundo (16% da população global, segundo o Relatório Mundial sobre Deficiência da OMS[4]): 80% delas moram em países pobres e em áreas de alto risco. Para elas, as mudanças climáticas representam uma ameaça multiplicada, atacando sua autonomia, segurança e dignidade de formas específicas e frequentemente invisibilizadas.

  • Os Desastres como Causa de Novas Deficiências e Agravamento de Condições

Eventos climáticos extremos são “geradores diretos” de deficiência. Enxurradas, desmoronamentos, acidentes e outros causam lesões que podem resultar em deficiências físicas permanentes.

Após o furacão Katrina, por exemplo, 15% dos sobreviventes de Nova Orleans (EUA) relataram ter adquirido uma deficiência física nova ou temporária [5], fora o trauma psicológico decorrente das perdas e do medo constante que exacerba condições de saúde mental. Estudos indicam que a prevalência de transtorno de estresse pós-traumático pode dobrar em comunidades afetadas por desastres [6], como aconteceu nas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Porém, não precisamos ir longe: os apagões causados pela ENEL Brasil em São Paulo causaram traumas, como a impossibilidade de carregar baterias do celular, da cadeira de rodas, aparelhos auditivos ou equipamentos de suporte à vida.

  • Autismo e calor

Pessoas autistas apresentam, com frequência, alterações no processamento sensorial e na regulação térmica, o que torna o calor excessivo e as mudanças bruscas de temperatura particularmente difíceis de tolerar.

Estudos indicam que esses indivíduos podem ter hiper ou hipossensibilidade interoceptiva, dificultando a percepção e o controle da própria temperatura corporal, além de maior sensibilidade ao suor, à umidade e ao contato da roupa com a pele.

O calor intenso pode amplificar a sobrecarga sensorial, levando ao aumento de ansiedade, irritabilidade, fadiga cognitiva, dificuldade de concentração e maior incidência de crises (meltdowns).

Mudanças rápidas de temperatura — como a transição entre ambientes externos quentes e locais com ar condicionado muito frio — também afetam a previsibilidade sensorial, fator central para o bem-estar de pessoas autistas.

Do ponto de vista fisiológico, há evidências de diferenças na resposta do sistema nervoso autônomo, com menor eficiência na adaptação térmica, o que reforça a importância de ambientes termicamente estáveis, planejamento climático e adaptações razoáveis como controle de temperatura, ventilação adequada e pausas para autorregulação.

  •  O Ataque Direto aos Suportes Vitais: Dados Técnicos e Econômicos

Para quem já vive com uma deficiência, o clima extremo é um agressor do seu suporte vital, com custos econômicos diretos e significativos.

  • Calor Extremo: A eficiência de baterias de lítio, comuns em cadeiras de rodas motorizadas e dispositivos de comunicação, cai drasticamente acima de 35°C e sua vida útil é reduzida permanentemente.

O custo médio de uma cadeira de rodas motorizada ultrapassa US$ 2.000 (nos EUA), com baterias representando até 30% do valor. A substituição precoce devido a danos térmicos impõe um custo extra.

Medicamentos essenciais, que exigem cadeia de frio (como insulina), podem se tornar inutilizáveis, gerando perdas diretas e riscos à saúde.

  • Falhas no Fornecimento de Energia: Apagões prolongados desconectam a pessoa de sua rede de autonomia.

Nos EUA, entre 2011 e 2021, o número de apagões relacionados ao clima mais que dobrou, afetando desproporcionalmente comunidades vulneráveis[7]. Para quem depende de ventilação pulmonar ou de uma bomba de infusão de nutrição, uma queda de energia sem backup significa emergência médica imediata.

  • Custos Exponenciais: O custo de vida é substancialmente mais alto para uma pessoa com deficiência. No Reino Unido, a Scope [8]estima que esse custo extra (“disability price tag“) seja em média £ 975 por mês (cerca de R$ 6.000,00), correspondente a equipamentos, tratamentos, transportes especializados e necessidades energéticas maiores.

Mudanças climáticas inflacionam esse custo, demandando investimentos em adaptação residencial (geradores, sistemas de resfriamento, proteção contra inundação) que podem variar de US$ 3.000 a US$ 15.000 por domicílio[9].

3. A Exclusão na Resposta a Desastres e os Custos Sociais

A ausência de medidas de proteção a pessoas com deficiência durante desastres resulta em expressivos custos humanos e econômicos. Durante o incêndio de Paradise, na Califórnia (2018), a taxa de mortalidade de pessoas com deficiência foi desproporcionalmente alta, evidenciando a falha dos planos de evacuação[10].

Reconstruir uma vida após perder equipamentos essenciais em um desastre não é apenas caro para o indivíduo: também sobrecarrega os sistemas de saúde e assistência social.

A dependência forçada, por falta de adaptação, demanda iniciativas que geram custos a longo prazo, que poderiam ser evitados com investimentos antecipados.

  • Conclusão: Imperativos de Liderança, Inovação e Inclusão Estratégica

A crise climática é, portanto, também uma crise aguda de acessibilidade. Ignorar essa interseção é um erro estratégico, moral e econômico.

Para os líderes empresariais e formuladores de políticas, o caminho a seguir é claro:

  • Inovar considerando a Resiliência Inclusiva: O mercado de tecnologia assistiva, projetado para resistir a extremos climáticos, representa uma oportunidade econômica e de impacto social. Normas de durabilidade térmica e hidráulica devem ser incorporadas.
  • Garantir Infraestrutura Crítica Inclusiva: Planos de resiliência energética devem identificar e priorizar o fornecimento de tecnologias médicas para pessoas dependentes de tecnologias médicas, mitigando riscos e custos emergenciais posteriores.
  • Incluir nos Planos de Risco e Orçamentos: Todos os planos de resposta a desastres e políticas de adaptação climática devem ter capítulos específicos e orçamento dedicado para a proteção de pessoas com deficiência, seguindo o princípio “Nada sobre nós, sem nós”. Todos podem se beneficiar: idosos, obesos, pessoas com mobilidade reduzida (situacional, temporária ou permanente). Ou seja: trata-se de investimento e não somente de custo ou adequação para compliance.
  • Financiar e direcionar a adaptação: Mecanismos financeiros, como subsídios e seguros acessíveis, devem cobrir os custos extras de adaptação climática para pessoas com deficiência, reconhecendo essa vulnerabilidade específica.

Combater as mudanças climáticas com uma lente de acessibilidade não é um gasto; é um investimento em dignidade humana, em resiliência econômica e em justiça social.

A verdadeira medida do nosso progresso não será dada apenas pela redução das emissões de carbono, mas pela segurança e autonomia que garantiremos aos mais vulnerabilizados em um mundo em transformação.

O clima está mudando. Nossa resposta não pode deixar ninguém para trás. A hora de agir, de forma inclusiva e decisiva, é agora.


[1] Copernicus Climate Change Service, 2024.

[2] OIT – Organização Internacional do Trabalho, 2019.

[3] Organização Mundial da Saúde, 2024.

[4] Relatório Mundial sobre Deficiência

[5]  White et al., 2007

[6] Goldmann & Galea, 2014.

[7] Climate Central, 2022.

[8] Scope, 2023.

[9] Valor estimado para pessoas com renda média, valor inacessível para a população em geral

[10] Fry, 2029.

Fontes e Referências

  1. Copernicus Climate Change Service (ECMWF). 2024, 9 de Janeiro. 2023 is the hottest year on record, with global temperatures close to the 1.5°C limit. In: https://climate.copernicus.eu/copernicus-2023-hottest-year-record
  2. Organização Internacional do Trabalho (ILO). (2019). Working on a warmer planet: the impact of heat stress on labour productivity and decent work. In: https://www.ilo.org/sites/default/files/wcmsp5/groups/public/%40dgreports/%40dcomm/%40publ/documents/publication/wcms_711919.pdf
  3. Organização Mundial da Saúde, “Calor e Saúde”. In: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/climate-change-heat-and-health
  4. Organização Mundial da Saúde (OMS) e Banco Mundial. (2011). Relatório Mundial sobre a Deficiência. In: https://www.who.int/teams/noncommunicable-diseases/sensory-functions-disability-and-rehabilitation/world-report-on-disability
  5. White, G. W., Fox, M. H., Rooney, C., & Cahill, A. (2007). Assessing the Impact of Hurricane Katrina on Persons with Disabilities. Universidade do Kansas. In: https://disability.law.uiowa.edu/dpn_hi/345.pdf
  6. Goldmann, E., & Galea, S. (2014). Mental health consequences of disasters. Annual review of public health, 35, 169-183. In: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24159920/
  7. Climate Central. (2022). Power Outages and Climate Change. In: https://www.climatecentral.org/report/surging-power-outages-and-climate-change
  8. Scope (UK). (2023). The Disability Price Tag. In: https://www.google.com/search?q=The+Disability+Price+Tag&rlz=1C1GCEA_enBR1148BR1148&oq=The+Disability+Price+Tag&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOTIHCAEQABjvBTIHCAIQABjvBTIHCAMQABjvBTIKCAQQABiABBiiBDIHCAUQABjvBdIBCTQzMzlqMGoxNagCCLACAfEFarx5RChi7rE&sourceid=chrome&ie=UTF-8
  9. Fry, K. (2019). The Deadly Disregard for Disabled People in Wildfire Zones. Bloomberg. In: https://pulitzercenter.org/stories/many-disabled-fire-victims-los-angeles-continuing-trauma
  10. “Custos Adicionais da Pessoa com Deficiência física”. Jornal Brasileiro de Economia da Saúde”. In: https://jbes.com.br/index.php/jbes/article/view/203. ”. Arquivos /

v. 11 n. 1 (2019) /

  • *  Marta Gil é Especialista parceira da Labor em inclusão social. Socióloga, fundadora e coordenadora executiva do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas; Fellow da Ashoka Empreendedores Sociais, membro do conselho administrativo da FBASD, consultora para o setor público e privado; consultora para o Banco Mundial e OIT Genebra; autora de publicações e artigos; palestrante em eventos nacionais e internacionais; prêmios de reconhecimento pelo trabalho.
  • * Thierry Cintra Marcondes é Especialista em Acessibilidade/ Diversidade, Inovação e ESG | Conselheiro | Empreendedor | Investidor | Palestrante | Professor | Conector de Impacto e Criador de Negócios Futurísticos

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