Especialista analisa como humilhação, ressentimento e sensação de perda de controle podem compor o roteiro psíquico que antecede explosões de violência
O Brasil registrou 47.508 mortes violentas intencionais em 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Parte desses casos envolve crimes cometidos no contexto de conflitos afetivos e familiares, nos quais o agressor tira a própria vida após o ataque.
Elainne Ourives, psicanalista e especialista em reprogramação mental, constata que episódios desse tipo não surgem de forma repentina. “O ato extremo não nasce do nada. Ele é o fim de um roteiro interno que começa muito antes, quando a pessoa perde a capacidade de regular a própria emoção”, afirma.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país contabilizou 1.463 feminicídios em 2023, muitos deles motivados por ciúme, sentimento de posse e inconformismo com o término da relação. A literatura clínica aponta que esses fatores estão associados à dificuldade de lidar com frustração e rejeição.
Segundo a especialista, quando o vínculo afetivo deixa de ser relação entre dois sujeitos e passa a ser vivido como identidade, a perda não é elaborada como tristeza. “Ela vira humilhação. E a humilhação é uma emoção explosiva, porque acende vergonha e impotência. Muita gente não sustenta a vergonha nem por minutos e troca esse afeto por ódio, que anestesia e devolve uma falsa sensação de poder”, explica.
A Organização Mundial da Saúde estima que o Brasil tenha cerca de 18,6 milhões de pessoas com transtornos de ansiedade, o maior número das Américas. O Ministério da Saúde também registra crescimento nas notificações de violência autoprovocada e ideação suicida nos últimos anos.
Para Elainne, embora transtornos mentais não explicam sozinhos comportamentos violentos, a ausência de regulação emocional é um fator de risco. “Quando falta freio interno, a pessoa deixa de simbolizar a dor. Ela não transforma o afeto em palavra, limite ou afastamento. Ela atua no pico do gatilho, e é no pico do gatilho que a mente fica cega”, diz.
Estudos publicados pela Associação Americana de Psicologia mostram que traços de personalidade marcados por narcisismo vulnerável e baixa tolerância à frustração estão associados a reações intensas diante de rejeição. No Brasil, levantamento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre violência conjugal já indicou que sentimentos de posse e controle aparecem com frequência nos relatos de agressores. Para a especialista, o perfil recorrente nesses episódios é o de alguém que vive o vínculo como propriedade. “Ele não colapsa por amor, mas por controle. Quando perde, não entra em luto, entra em humilhação. E a humilhação vira ódio para anestesiar a vergonha”, afirma.
Segundo ela, o ressentimento passa a operar como repetição mental da cena com desejo de punição. Nesse estágio, a pessoa deixa de buscar entendimento e passa a buscar sentença. “O controlador tenta recuperar poder com vigilância, tribunal mental, pensamento de tudo ou nada e fantasia de fazer o outro sentir a mesma dor. Ele não aceita o outro como sujeito. Precisa vencer para não desabar”, diz.
A especialista defende que alta frequência emocional não se refere à negação da dor, mas à capacidade de atravessá-la sem destruir. “Alta frequência é freio interno. É sentir raiva, ciúme, tristeza e ainda assim não ultrapassar a linha. É retirar do gatilho, pedir ajuda, proteger inocentes e reconstruir a própria identidade depois da perda”, afirma.
O Atlas da Violência 2024 reforça que políticas públicas de prevenção precisam integrar segurança e saúde mental, ampliando acesso a atendimento psicológico e campanhas de conscientização sobre violência doméstica. Para a psicanalista, reconhecer sinais de risco é parte desse processo. “Se a pessoa percebe em si posse excessiva, vigilância constante, necessidade de controlar e impulso de punir, isso não é força. É um alerta emocional. O verdadeiro forte não é quem controla o outro, é quem se controla quando dói”, conclui.





