Autismo invisível: como o viés de gênero deixa milhares de mulheres sem diagnóstico

Autismo invisível: como o viés de gênero deixa milhares de mulheres sem diagnóstico

Dados do IBGE mostram que Brasil tem 1 milhão de mulheres autistas, mas especialistas alertam que a subnotificação mascara a real dimensão do problema

A subnotificação e o diagnóstico tardio do autismo em mulheres representam um desafio ainda pouco debatido na saúde pública brasileira, reflexo direto das desigualdades de gênero na saúde e da falta de capacitação dos profissionais para reconhecer os sinais do transtorno em diferentes perfis. 

No Brasil, segundo o Censo Demográfico 2022 divulgado pelo IBGE em 2025, aproximadamente 1 milhão de mulheres foram diagnosticadas com autismo, porém este número pode não corresponder com a realidade e ser, na verdade, ainda maior.

“Ainda há uma grande desinformação sobre o autismo e, quando falamos de mulheres no espectro, o tema se torna ainda mais negligenciado. O caminho das mulheres autistas é marcado por desafios específicos, desde o diagnóstico tardio ou equivocado até dificuldades no mercado de trabalho e na vida pessoal. Precisamos trazer esse debate à tona constantemente”, afirma Thalita Possmoser, Vice Presidente Clínica da Genial Care, rede de cuidado de saúde atípica especializada em crianças autistas e suas famílias.

Quando o diagnóstico se esconde sob padrões sociais

Para muitas mulheres autistas, o caminho até o diagnóstico é longo e repleto de invisibilidade. Isso ocorre, em grande parte, devido à chamada camuflagem social, um comportamento aprendido que faz com que meninas e mulheres reproduzam gestos, expressões e interações socialmente esperadas, mascarando os sinais do TEA.

Durante a infância e a adolescência, esses sinais costumam ser interpretados sob o filtro das expectativas de gênero. Um interesse intenso por determinados temas pode ser entendido como curiosidade ou inteligência acima da média. Já as dificuldades de comunicação e socialização são frequentemente confundidas com timidez ou sensibilidade emocional.

Segundo Thalita, os estereótipos de gênero na infância dificultam a identificação do TEA em meninas, o que tem reflexos importantes na vida adulta. “Com o tempo, esses sintomas não reconhecidos podem se acumular, resultando em quadros de ansiedade e depressão”, explica.

“As meninas, muitas vezes, não se encaixam nos estereótipos clássicos do autismo, o que faz com que seus sintomas pareçam mais sutis e passem despercebidos. Esse atraso no diagnóstico contribui para o aumento de casos de depressão entre mulheres autistas. Devido às diferenças na forma de manifestação e aos vieses de gênero, muitas só recebem o diagnóstico já adultas, após anos lidando com dificuldades sociais e emocionais sem a devida compreensão”, destaca a vice-presidente clínica da Genial Care.

A complexidade dos perfis autistas e o risco de diagnósticos tardios

Um estudo conduzido por cientistas da Universidade de Princeton e da Simons Foundation analisou dados de mais de 5.300 crianças autistas e identificou quatro subgrupos biologicamente distintos do TEA, cada um com necessidades específicas de suporte. A pesquisa, intitulada “Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals underlying genetic programs”, utilizou modelagem computacional avançada e uma abordagem “centrada na pessoa”, analisando centenas de características simultaneamente.

Os quatro perfis identificados são: social/comportamental (com desenvolvimento inicial típico, mas que desenvolve posteriormente dificuldades sociais e comportamentais, frequentemente acompanhadas de TDAH e ansiedade), TEA misto com atraso no desenvolvimento (com sinais precoces evidentes e atrasos significativos na linguagem e desenvolvimento motor), desafios moderados (dificuldades mais leves em todas as áreas) e amplamente afetado (desafios severos com múltiplas condições coexistentes).

No Brasil, onde o diagnóstico de autismo já enfrenta desafios estruturais — com média de diagnóstico tardio após os 4 anos e carência de especialistas fora dos grandes centros urbanos —, os achados do estudo revelam uma complexidade adicional que pode agravar a subnotificação de casos.

“O problema é que uma criança do perfil ‘social/comportamental’ pode facilmente receber apenas o diagnóstico de TDAH ou ter suas dificuldades sociais minimizadas como ‘timidez’ ou ‘imaturidade’. Isso atrasa o acesso a suportes essenciais para o TEA e pode comprometer seu desenvolvimento”, alerta Thalita.

Embora o estudo não tenha um foco específico em gênero, ele evidencia um problema já conhecido: as meninas frequentemente têm perfis mais “silenciosos” ou são melhores em mascarar dificuldades sociais, aumentando significativamente o risco de não serem diagnosticadas ou receberem diagnóstico tardio.

“Na infância e adolescência, os sintomas femininos costumam ser interpretados de acordo com expectativas de gênero. Por exemplo, o hiperfoco pode ser visto como sinal de inteligência, enquanto dificuldades de socialização e comunicação são frequentemente confundidas com timidez ou sensibilidade excessiva. Na vida adulta, esses sintomas podem se acumular e levar a quadros de ansiedade e depressão”, explica Possmoser.

Rumo a uma saúde mais inclusiva e igualitária

É essencial ampliar o debate sobre mulheres neurodivergentes e promover mudanças estruturais para que elas sejam reconhecidas, compreendidas e incluídas em todas as esferas da sociedade. A invisibilidade do autismo feminino é, em si, uma forma de negligência que perpetua vulnerabilidades e limita oportunidades.

A maioria das mulheres está mais exposta a situações sociais e é forçada a se comportar de forma considerada “adequada” desde muito cedo, fazendo com que muitas características do TEA sejam ocultadas nesse processo. Daí a importância da inclusão e representatividade quando falamos em mulheres autistas, para que cada vez mais diagnósticos e intervenções precoces sejam realizados, ajudando a mudar essa realidade e garantir que todas elas consigam desenvolver suas habilidades da melhor forma possível.

Promover a conscientização sobre o transtorno, criar espaços seguros e incentivar a comunicação aberta e honesta são formas concretas de ajudar mulheres autistas a expressarem suas necessidades e desafios.

“A conscientização e a criação de políticas públicas voltadas para esse grupo são passos fundamentais para um futuro mais igualitário e acessível para todas. Nosso desejo é que datas como essas se tornem um marco para a construção de um mundo mais inclusivo, onde todas as mulheres possam viver com dignidade, respeito e oportunidades reais”, finaliza Thalita Possmoser.

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Aviso de Direitos Autorais

Todos os direitos sobre os conteúdos publicados em todas as mídias sociais do Diário PcD, incluindo textos, imagens, gráficos, e qualquer outro material, estão reservados e são protegidos pelas leis de direitos autorais.
Todos os Direitos Reservados.
Nenhuma parte das publicações em todas as mídias sociais do Diário PcD devem ser reproduzidas, distribuídas, ou transmitidas de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação, ou outros métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por escrito do titular dos direitos autorais, de acordo com a legislação vigente.
Para solicitações de permissão para usos diversos do material aqui apresentado, entre em contato por meio do e-mail jornalismopcd@gmail.com ou telefone 11.99699 9955.
A infração dos direitos autorais é uma violação de Lei Federal 9.610, passível de sanções civis e criminais.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore