Campanha Abril Laranja destaca desafios e avanços na reabilitação de pessoas amputadas no Brasil

Com mais de 30 mil amputações por ano no país, iniciativa busca conscientizar sobre prevenção e desafios da reabilitação e mobilidade.

Todos os dias, cerca de 85 brasileiros passam pelo processo de amputação. Seja por complicações decorrentes de doenças como diabetes e problemas vasculares, por acidentes ou outras condições, a perda de um membro traz mudanças que vão além do corpo. Retomar a autonomia e a confiança no próprio movimento se torna um desafio diário.

É nesse contexto que a Campanha Abril Laranja ganha força. A iniciativa, encabeçada no Brasil por instituições como a Associação Brasileira de Ortopedia Técnica (Abotec) e por marcas como a Ottobock, líder em vendas de próteses e órteses, busca ampliar a informação sobre prevenção e reabilitação de pessoas amputadas. Dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) mostram que, em 2022, foram realizadas mais de 31 mil amputações no país – uma realidade que, para muitos, significa reaprender a caminhar, a trabalhar e a se movimentar.

“O Abril Laranja alerta para a amputação e o impacto que ela causa, mas também reforça que a vida continua. Muitas amputações poderiam ser evitadas, especialmente as causadas por diabetes e acidentes de trânsito – só em São Paulo, são 1.200 mortes por ano. Queremos conscientizar sobre a prevenção e a importância da reabilitação. A tecnologia tem evoluído e oferece cada vez mais soluções para garantir mobilidade e independência. Nosso objetivo é ampliar essa mensagem e mostrar que é possível seguir em frente. O movimento cresce a cada ano e já chegou à Argentina e à Bolívia”, explica Peter Kuhn, ortesista, protesista e presidente da Abotec.

A campanha também destaca a importância do avanço da tecnologia para a mobilidade de pessoas amputadas. Hoje, próteses mais leves, responsivas e adaptadas às necessidades individuais fazem toda a diferença no processo de reabilitação.

“A pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias são fundamentais para oferecer mais conforto, segurança e desempenho aos usuários de próteses. Nosso compromisso é continuar investindo em soluções que ampliem a mobilidade e a qualidade de vida das pessoas amputadas, possibilitando que elas sigam seus caminhos com autonomia”, afirma Thomas Pfleghar, diretor técnico da América Latina da Ottobock. A Ottobock é uma das marcas líderes em pesquisa e desenvolvimento de próteses e órteses no Brasil e alerta para a necessidade de políticas de acesso a próteses de qualidade. 

“É preciso comprometimento de toda a sociedade na conscientização da relevância da pesquisa nesta área. O poder público, instituições, empresas precisam dar visibilidade à causa, e a campanha surge como essencial para essa discussão”, diz Thomas. O Abril Laranja acontece ao longo de todo o mês e mobiliza profissionais de saúde, pacientes e instituições ligadas à ortopedia técnica.

Vida pós-amputação

Entre aqueles que enfrentaram esse caminho está o paratleta Vinicius Rodrigues. Vice-campeão paralímpico, ele amputou a perna esquerda aos 19 anos, após um acidente de moto em Maringá, no Paraná. O impacto da amputação, no entanto, foi menos sobre o físico e mais sobre a incerteza do futuro.

“Eu não chorei quando descobri que iam cortar minha perna. Chorei quando vi minha mãe chegando. Ela veio: ‘meu filho’, e eu disse: ‘não vou morrer não, só vão cortar minha perna. Não chora que eu vou chorar’. Ela chorou e eu desabei. Imagina, a gente era duro, como ia comprar uma perna?”, relembra ele. Foi com a indenização do acidente que o atleta decidiu mudar de vida. Partiu para São Paulo e encontrou no esporte um caminho. 

“Engraçado que muitas pessoas perdem um dedo e se aposentam. Eu, ao contrário, perdi uma perna e construí uma carreira. Recebi uma indenização pelo acidente e com esse dinheiro fui pra São Paulo. Treinei, fiquei quatro anos, treinava na academia. Ia pro centro olímpico, enfim, a amputação nunca me limitou”, reforça.

A trajetória de superação também é compartilhada por Sabrina Custódio. Em 2010, aos 22 anos, ela sofreu um acidente doméstico que resultou na amputação de ambos os braços e da perna esquerda. Durante a recuperação, encontrou no esporte uma forma de ressignificar sua vida.

“Depois de três meses em recuperação, eu já estava andando e com a prótese. Fui a uma feira de reabilitação e lá tinham vários tipos de esportes: vôlei sentado, basquete para cadeira de rodas, corrida. Naquela época eu queria fazer tudo o que aparecesse, não queria perder nenhuma oportunidade”, conta Sabrina.

Com o apoio de sua mãe e de figuras como o maratonista Paulo de Almeida, que lhe forneceu uma lâmina para a prótese da perna, Sabrina iniciou no paradesporto. Hoje, é recordista brasileira nos 200, 300 e 400 metros do salto em distância e campeã brasileira de ciclismo. “Minha mãe me apoia até hoje. Eu sou filha única, e ela sempre esteve comigo, cuidando de mim e fazendo de tudo. Quando comecei a praticar esporte, ela foi a primeira a me apoiar, me acompanhar nas competições, nos treinos, dando a maior força”, finaliza a atleta.

Para saber mais sobre a campanha, acesse www.abrillaranja.org.br.

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