OPINIÃO
- * Por Abrão Dib
Neste Dia do Jornalista, carrego comigo um sentimento ambíguo — quase paradoxal. De um lado, um orgulho profundo por ter escolhido essa profissão que, em sua essência, nasce do compromisso com a verdade, com a escuta atenta e com o dever de informar. Do outro, uma vergonha crescente ao observar como, muitas vezes, o jornalismo vem sendo distorcido pela força do poder.
Ser jornalista independente é, acima de tudo, um ato de resistência. É escolher trilhar um caminho onde a autonomia editorial não tem preço — ainda que, muitas vezes, isso signifique abrir mão de estabilidade, visibilidade ou recursos. É acordar todos os dias com a convicção de que informar com honestidade ainda importa, mesmo quando o ruído é maior que a verdade.
Sinto orgulho porque sei o que o jornalismo pode ser. Já vi — e vivi — o poder de uma boa apuração, de uma história bem contada, de uma denúncia responsável. O jornalismo, quando exercido com ética, transforma realidades, dá voz aos invisíveis e questiona estruturas que prefeririam permanecer intactas.
Mas também sinto vergonha. Vergonha ao ver colegas e veículos se curvando a interesses que nada têm a ver com o interesse público. Vergonha ao testemunhar a informação sendo tratada como mercadoria manipulável, moldada por conveniências políticas, econômicas ou ideológicas. Vergonha ao perceber que, muitas vezes, a busca por cliques, influência ou alinhamento com o poder tem falado mais alto que o compromisso com os fatos.
Não é fácil ocupar esse lugar de tensão. É desconfortável amar uma profissão e, ao mesmo tempo, sentir-se decepcionado com os rumos que ela toma. Mas talvez seja justamente esse incômodo que nos mantém vigilantes. Que nos impede de normalizar o que não deve ser normalizado.
Ser jornalista independente, hoje, é reafirmar diariamente um pacto: o de não ceder à pressão, o de não negociar a verdade, o de não esquecer para quem o jornalismo deve existir — a sociedade.
Neste Dia do Jornalista, não celebro apenas a profissão. Celebro a possibilidade de exercê-la com consciência. E, apesar da vergonha que às vezes pesa, escolho alimentar o orgulho — não pelo que o jornalismo tem sido em certos espaços, mas pelo que ele ainda pode e deve ser.
- * Abrão Dib é jornalista profissional diplomado.






