“Espero que você volte andar”, afirmou professor universitário que zombou de cadeirante em Minas Gerais

"Espero que você volte andar", afirmou professor universitário que zombou de cadeirante em Minas Gerais

Professor da UFMG é acusado de crime de discriminação e agressão verbal contra cadeirante. Ministério Público e Polícia Cívil investigam o caso. OAB e TCE pedem apuração imediata. Vice-Governador mineiro quer desligamento do acusado

Relatos feitos por Juliana Duarte, proprietária do restaurante Cozinha Santo Antônio, em Belo Horizonte e de seu marido Pedro Vieira – que é cadeirante, apontam mais um crime de preconceito e capacitismo cometido contra pessoa com deficiência.

Um Boletim de Ocorrências levou para a Polícia Civil todos os detalhes dos momentos em que o professor universitário Pedro Benedito Casagrande, estacionou seu veículo em frente à rampa destinada a pessoa com deficiência, prejudicando a passagem do cadeirante.

Pelas redes sociais, Juliana fez um desabafo. “Desculpem, mas preciso interromper a alegria do carnaval para dividir com vocês uma história absurda que aconteceu comigo e com o meu amado Pedro. Na noite de quinta-feira, 12/02 eu e a Raquel, cuidadora do meu marido, mulher, negra, estávamos indo com o Pedro para o restaurante, e como é comum por aqui, tinha um carro parado na faixa de pedestres impedindo o acesso à rampa de cadeirantes. Fui até o bar em frente e identifiquei o proprietário do carro. Pedi que ele retirasse o carro para eu passar com meu marido cadeirante. No caminho eu perguntei: – você não tem vergonha? Ele me respondeu: – Não. Sou escroto, mas vou tirar o carro mesmo assim. Retirou o veículo e ao sair do carro veio em nossa direção e disse: – Tchau cadeirante! Espero que você ande muito por aí”.

Mas as cenas de preconceito e capacitismo não terminaram. “Para mim, o caso estava encerrado. Mas ele veio por trás da gente e se dirigiu ao meu marido dizendo: ‘Tchau, cadeirante. Espero que você ande muito por aí’. Eu fiquei tão abobada, tão nervosa, que nem falei nada”, contou Juliana. E ainda, segundo Juliana, na sequência, o professor ainda entrou no restaurante dela, sorrindo, e perguntou a ela, em tom sarcástico: “E aí, ele voltou a andar?”.

Pedro Vieira, esposo de Juliana, sofre há quatro anos de uma doença degenerativa que o impede de falar e se locomover, mas está consciente e tem ciência de todo o ocorrido.

“Eu fiquei muito abalada, é um negócio inexplicável. O que nós vivemos foi uma violência. Temos que lutar por justiça. Eu espero que ele seja intimado e punido e que, a partir desse acontecimento, a gente consiga dar visibilidade à discriminação contra as pessoas com deficiência. Agora é luta, é um assunto que tocou nosso coração”, comentou Juliana.

A Polícia Civil afirmou que o inquérito segue em tramitação a cargo da Delegacia Especializada em Atendimento à Pessoa com Deficiência e ao Idoso. O professor Pedro Benedito Casagrande, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.

Pedro Edson Cabral Vieira, é servidor aposentado do TCE-MG e vítima da agressão. Durval Ângelo – Presidente do Tribunal, afirmou que a instituição repudia “toda e qualquer prática que viole a dignidade humana, estimule preconceito ou desrespeite pessoas em razão de suas condições pessoais, sociais ou físicas”. A nota ainda diz que esse tipo de conduta não condiz com o respeito aos direitos humanos e com o “compromisso institucional que deve orientar a atuação de agentes públicos e daqueles que exercem funções de relevância social”.

O Ministério Público de Minas Gerais declarou que irá instaurar Procedimento Investigatório Criminal para apurar os fatos e adotar as providências cabíveis. “A instituição repudia veemente qualquer atitude capacitista e reforça seu compromisso com a defesas dos direitos das pessoas com deficiência, da acessibilidade e da dignidade humana”.

O vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões, utilizou suas redes sociais para anunciar que determinou o levantamento de qualquer vínculo do docente com projetos do Governo do Estado, visando o desligamento imediato do profissional. “Acabo de determinar que o Governo do Estado levante a presença desse senhor em qualquer projeto conduzido em favor do Estado, para providências imediatas de desligamento”, afirmou Simões em publicação oficial.

Carla Rodrigues – Presidente da Comissão Estadual de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB/MG afirmou que “manifesta seu apoio a Pedro e à sua família diante do episódio capacitista que vivenciaram ao reivindicarem algo básico: o direito de ir e vir com dignidade. O relato expõe uma sucessão de violações que não podem ser naturalizadas: estacionamento sobre faixa de pedestres, obstrução da rampa de acesso, equipamento essencial de acessibilidade, e falas que banalizam e deslegitimam a condição física de uma pessoa com deficiência. Não se trata de exagero. Trata-se de direito. O mínimo precisa ser respeitado. Sempre”.

Macaé Evaristo, Ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, escreveu que “minha solidariedade ao Pedro, uma pessoa cadeirante, que foi violentada verbalmente após sua esposa, Juliana Duarte, solicitar ao proprietário de um carro que estava estacionado em frente a uma rampa de acesso que retirasse o veículo. É preciso ter consciência e respeito a esses espaços que tornam a vida de tantas pessoas mais digna e autônoma”.

A UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) afirmou que recebeu, por meio de sua Ouvidoria, denúncia sobre o caso, que seguirá a devida tramitação administrativa na Instituição, com rigor na apuração dos fatos, observância
dos ritos processuais e adoção de todas as providências cabíveis, na forma da lei. Em comunicado oficial, a instituição afirma que “que não tolera qualquer conduta discriminatória e que viole a dignidade humana ou os direitos fundamentais. Seus servidores devem pautar sua atuação pelos princípios da legalidade, da moralidade, da ética e do respeito irrestrito aos direitos humanos, dentro e fora do ambiente universitário, nos termos da lei que rege as ações de servidores públicos”.

Quem é Pedro Benedito Casagrande

O professor acusado de cometer as agressões contra o cadeirante foi admitido na UFMG em 07/06/2021 e ocupa o cargo de Professor B do Magistério Superior.

Ele já realizou 22 viagens a serviço custeadas pela Universidade. A última viagem foi para “observar os minérios in situ e compreender as técnicas básicas de pesquisa mineral em campo”, realizada em novembro de 2025.

Em outubro ficou 3 dias em Gramado/RS. Justificou a viagem que a “participação no congresso ENTMME 2025 é de grande importância, pois contribuirá significativamente para a ampliação de meus conhecimentos, os quais poderão ser repassados aos alunos e comunidade, enriquecendo ainda mais o processo de ensino aprendizagem”.

Em dezembro do ano passado, sua remuneração básica bruta foi de R$ 14.019,74.

Informações disponíveis em

https://portaldatransparencia.gov.br/servidores/1372916

https://demin.ufmg.br/docentedet.php?numaut=31

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