Feneis exige apuração rigorosa em caso de jovem surdo que foi agredido no carnaval no Rio Grande do Norte

Feneis exige apuração rigorosa em caso de jovem surdo que foi agredido no carnaval no Rio Grande do Norte

Entidade divulgou repúdio à violência praticada contra um jovem surdo, cometida por três seguranças privados durante as festividades de Carnaval no município de Apodi, no Rio Grande do Norte

O jovem Isaac Torres, 29 anos, ainda convive com dores quatro dias após ter sido agredido por seguranças em pleno Carnaval de Apodi, no Oeste Potiguar. Ele é surdo e ainda vai passar por exame de raio-x para saber se houve alguma fratura. A agressão ocorreu no último domingo (15), foi gravada e ganhou repercussão desde a noite dessa quarta-feira (18).

Um Boletim de Ocorrência sobre o caso foi registrado na segunda-feira, 16, e o exame de corpo de delito foi feito no dia seguinte.

A vítima apresentou hematomas na cabeça, marcas de cassetetes nos ombros e na costela, além de corte no cotovelo esquerdo e dores na região das nádegas. Após as agressões, o rapaz foi socorrido por conhecidos da família, que o levaram ao hospital.

As imagens que flagraram a agressão mostram seguranças particulares contratados para atuar na festa desferindo golpes de cassetete e empurrando o homem, que ainda tenta se comunicar em linguagem de sinais. A Prefeitura de Apodi afirma que está apurando o caso e que medidas cabíveis serão adotadas. A família afirmou que tem recebido o apoio necessário do município.

A delegada-geral da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, Ana Claudia Saraiva, afirmou que o caso está sendo tratado com prioridade e que já foram iniciados os encaminhamentos para a investigação. A informação foi repassada durante coletiva de imprensa, na sede da Governaria, durante apresentação dos dados da Operação Carnaval 2026.

Repercussão

O Diário PcD teve acesso a manifestação de Antônio Campos de Abreu, presidente da FENEIS – Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos:

“A Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) vem a público manifestar repúdio veemente à violência praticada contra um jovem surdo, cometida por três seguranças privados durante as festividades de Carnaval no município de Apodi, localizado na região Oeste potiguar, a cerca de 340 km de Natal.

Imagens amplamente divulgadas nas redes sociais mostram o jovem sendo cercado, empurrado, derrubado e violentamente agredido com cassetetes, sem qualquer possibilidade de defesa justa. De acordo com testemunhas, o jovem tentava utilizar a Língua Brasileira de Sinais (Libras) para explicar que não compreendia as ordens verbais emitidas pelos seguranças. Ainda assim, foi submetido a uma ação cruel, desproporcional e covarde.

O episódio evidencia uma grave violência linguística, somada à violência física, praticada por profissionais que tinham o dever de proteger e zelar pelo bem-estar da população durante um evento público. A incapacidade de compreender uma ordem verbal não pode, em hipótese alguma, ser tratada como desobediência ou ameaça, tampouco justificar agressões.

A pessoa surda e surdocega tem direito à comunicação acessível, ao respeito à sua língua e à sua condição linguística. A ausência de preparo da equipe de segurança para lidar com a diversidade humana e linguística não pode resultar em espancamento, humilhação ou violação da dignidade humana.


A Feneis ressalta que esse caso não é isolado. Pessoas surdas e surdocegas em todo o Brasil vivenciam, cotidianamente, situações de constrangimento, discriminação e violência por não serem compreendidas em contextos públicos, especialmente por agentes e equipes responsáveis pela segurança.

Diante da gravidade dos fatos, a Feneis exige:

  • a imediata apuração rigorosa do ocorrido;
  • a responsabilização e punição dos seguranças envolvidos, nos termos da lei;
  • a responsabilização da empresa contratante e dos organizadores do evento;
  • a adoção de medidas formativas obrigatórias sobre pessoas surdas e surdocegas, Libras, direitos
    linguísticos e direitos humanos para equipes de segurança em eventos públicos

A Feneis não tolera qualquer forma de violência contra pessoas surdas e surdocegas. Defender a vida, a integridade física e os direitos linguísticos da comunidade surda é um compromisso inegociável.


Até quando a falta de acessibilidade e de formação continuará produzindo violência?

Vidas surdas e surdocegas importam. Direitos linguísticos são direitos humanos!

CRÉDITO/IMAGEM: Surdo, Isaac Torres ainda tentou se comunicar em linguagem de sinais com os seguranças | Foto: Reprodução

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