Estudo revela que crianças acometidas pela doença têm até sete vezes mais risco de hospitalização; segundo a infectologista Afya São João Del Rei, alterações neurológicas graves aumentam a vulnerabilidade e exigem cuidado contínuo.
Dez anos após os primeiros casos de Zika vírus no Brasil, o país ainda enfrenta os efeitos de uma das maiores crises sanitárias recentes. A epidemia, com pico entre 2015 e 2016, deu origem à chamada “geração Zika” – crianças com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ), marcada por malformações graves como a microcefalia. Desde então, mais de 4.500 casos foram registrados no país, segundo o Ministério da Saúde.
Em 2025, um estudo do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz, publicado na revista International Journal of Infectious Disease, revelou que essas crianças apresentam taxas de hospitalização entre três e sete vezes maiores do que outras e precisam de internações prolongadas, o que evidencia a gravidade das sequelas da SCZ.
A professora de infectologia da Afya São João Del Rei, Dra Janaína Teixeira, explica que crianças com SCZ têm taxas de hospitalização maiores devido a alteração neurológica. “Essas crianças podem desenvolver encefalopatia crônica, caracterizada por déficits cognitivos, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor e distúrbios neurológicos de gravidade variável. Essas alterações comprometem a capacidade de resposta imunológica e aumentam a suscetibilidade a infecções e outras comorbidades, o que contribui para uma maior frequência de hospitalizações.”
De 2015 até o final de 2023, o Brasil notificou 21.196 casos suspeitos de SCZ, dos quais 3.732 foram confirmados como infecção congênita e 1.857 como casos específicos da síndrome, segundo dados do Ministério da Saúde no Boletim Epidemiológico de março de 2024.
“O vírus Zika, quando infecta gestantes, pode causar uma infecção sintomática ou assintomática. Em geral, cerca de metade dos casos apresenta sintomas que costumam ser leves, como febre, manchas no corpo, dor de cabeça e cansaço. O problema é que o vírus pode ser transmitido para o bebê através da placenta, causando o que chamamos de infecção congênita. Nesse caso, o bebê se infecta com o vírus Zika, o que pode trazer risco de malformações, sendo a principal delas a microcefalia”, reforça a médica da Afya.
Combate no Brasil
Embora o surto mais intenso tenha passado, o vírus continua circulando no país. Somente nas primeiras 31 semanas de 2024, foram registrados 7.777 casos prováveis de Zika, conforme o Informe Semanal das Arboviroses divulgado em agosto daquele ano. Os números de 2025, indicam uma redução significativa, com 2.155 casos prováveis.
Para a infectologista, diante desse cenário, o combate ao mosquito é essencial. “A conscientização da população e as medidas públicas de controle, como a eliminação de focos de água parada, são ferramentas essenciais. Embora ainda não existam soluções definitivas, pesquisas com técnicas inovadoras, como a utilização da bactéria Wolbachia para reduzir a capacidade de transmissão do vírus da dengue, mostram-se promissoras”, complementa a médica da Afya São João Del Rei