Justiça climática é para TODOS. Cabe todo mundo nesse TODOS?

  • Por  Rita Mendonça

A gente fala muito de justiça climática quando pensa em indígenas, quilombolas, ribeirinhos, povos de terreiro, ciganos, entre outros. E tá certíssimo! São povos que têm uma ligação profunda com a terra, com a natureza, e são os que mais sofrem com os impactos da crise climática. Mas precisamos lembrar que a justiça climática não pode ter por critério apenas o marcador “território e comunidades”. Tem gente que não está ligada a um território específico, não compõe um povo ligado por tradições, costumes e raça, mas que também vive desigualdades e exclusões que cada vez mais são agravadas com as mudanças climáticas. É o caso das pessoas com deficiência, por exemplo.

Quando a gente fala de justiça climática, está falando de reconhecer que a crise do clima afeta muito mais os tidos como “diferentes”. Pessoas com deficiência muitas vezes ficam invisíveis nesses debates, assim como mulheres, crianças, adolescentes, jovens, pessoas idosas, LGBTQIAPN+, imigrantes e refugiados, e por aí vai.

Quando pensamos em remoções involuntárias e emergenciais, estamos lembrando de que precisamos ter uma comunicação focada na acessibilidade e na linguagem simples? Estamos pensando na necessidade do transporte acessível ou adaptado? E no treinamento dos profissionais para realizarem o transporte de pessoas com deficiência física, para que não se machuquem e nem machuquem as pessoas com deficiência ou as submeta a constrangimento? E ao chegar aos pontos de encontro ou abrigos, lembraram das especificidades das pessoas com deficiência quanto ao local para dormir, aos banheiros, aos locais para refeições? E quem se alimenta de forma diferenciada em razão de deficiência ou até mesmo doenças? Se essas pessoas já enfrentam dificuldades no dia a dia, imagina numa situação de efetiva crise e emergência.

Assim como os povos tradicionais têm direito a manter, na medida do possível, seus modos de vida com dignidade e respeito, mesmo em contextos de desastres, as pessoas com deficiência também têm o direito de existir plenamente nos planos de resposta à crise climática. E como se faz isso? Lembrando que elas precisam participar do planejamento, das decisões, das ações de prevenção, serem ouvidas, terem acesso a recursos e proteção que previram e respeitaram suas especificidades.

As pessoas com deficiência precisar participar desde o começo na conversa — não podem apenas ser lembrados depois. “Nada sobre nós, sem nós” é o que reivindica o movimento de pessoas com deficiência e suas famílias: participação em espaços de decisão.

É importante perceber que ampliar a ideia de justiça climática para abranger a diversidade de pessoas e suas especificidades não é tirar o foco dos povos que lutam pelos seus territórios, tradições e costumes enquanto grupos. É fortalecer a luta, porque quando a gente pensa com interseccionalidade, pensa com mais justiça e mais inteligência. Ninguém solta a mão de ninguém, lembra? E para isso, todo mundo precisa estar no centro das soluções, contribuindo para pensar e planejar as melhores e mais adequadas respostas, sempre focadas em respeitar a dignidade, a autonomia e a segurança de todas as pessoas.

Se é pra falar de justiça climática de verdade, tem que incluir todas as identidades — as que vivem a terra, as que resistem nas margens, e também as que têm necessidades diferenciadas e especificidades. O clima tá mudando pra todo mundo, mas a resposta precisa vir com mais equidade, mais inclusão e escuta ativa. Porque só é justiça se inclui TODAS AS PESSOAS.

* Rita Mendonça é advogada, consultora, pesquisadora e palestrantes em temáticas sobre direitos humanos, direito ao trabalho, acessibilidade, diversidade e inclusão

Artigo originalmente publicado em https://www.linkedin.com/pulse/justi%25C3%25A7a-clim%25C3%25A1tica-%25C3%25A9-para-todos-cabe-todo-mundo-nesse-rita-mendon%25C3%25A7a-neuqf

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