OPINIÃO
- * Por Carina Alves
A leitura sempre foi, para mim, um instrumento de emancipação. É por meio dela que ampliamos horizontes, desenvolvemos consciência crítica e afirmamos direitos. O dia 4 de janeiro, referência mundial para a reflexão sobre o sistema Braille, reforça a urgência de compreender a leitura como um direito estruturante, sobretudo em uma sociedade que ainda impõe barreiras às pessoas cegas.
O Braille é um sistema de leitura e escrita tátil composto por combinações de seis pontos em relevo, organizados em duas colunas. Cada célula braille permite representar letras, números, sinais matemáticos, símbolos científicos e notações musicais, constituindo uma linguagem completa. Sua importância vai além da alfabetização, pois garante desenvolvimento cognitivo, autonomia intelectual e participação nos espaços educacionais e culturais. Defender o Braille é reconhecer que a escrita é condição essencial para o pensamento crítico e para a cidadania plena.
Foi a partir dessa compreensão que nasceu o projeto Literatura Acessível. Em 2014, durante a defesa da minha dissertação de mestrado, quando fui provocada a refletir sobre o destino das histórias presentes na pesquisa. Uma das integrantes da banca, a professora doutora Marcia Campeão, afirmou: “Pense nas crianças, a base da nossa educação precisa saber e aprender mais sobre a diversidade humana”. Saí daquela sala inquieta e foi dessa inquietação que surgiu a decisão de escrever para o público infantil.
O projeto contempla um box com 10 livros contando trajetórias sensíveis do cotidiano de personagens com deficiência. São narrativas que evidenciam preconceitos, discriminações e processos de ressignificação da identidade social. Embora paradidáticos e direcionados ao público infantojuvenil, os livros dialogam com leitores de todas as idades.
Com uma proposta baseada na multiplicidade e no protagonismo da diversidade, o Literatura Acessível estimula debates dentro e fora das escolas. Aborda, de forma lúdica, temas como inclusão, empoderamento feminino, educação emancipatória, multilinguismo, pessoas refugiadas, respeito ao próximo e acessibilidade. Os dez livros do box contam com o recurso do sistema Braille, além de outros recursos de acessibilidade, e o projeto está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
O Dia Mundial do Braille nos lembra que a leitura precisa ser um território comum. Quando garantimos livros pensados desde a origem para diferentes formas de leitura, fortalecemos uma educação mais justa, plural e inclusiva.
Carina Alves é Psicóloga, Doutora em Educação, Empreendedora Social e Fundadora-Presidente do Instituto Incluir. Ativista pelos direitos humanos, idealizou o projeto Literatura Acessível e atua como avaliadora de acessibilidade pelo Zero Project (ONU). Foi a primeira brasileira premiada pela UNESCO Paris e pelo Governo da China com o Prêmio Confúcio (2022) e recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga (2024).



