OPINIÃO
- * Por Igor Lima
Ignorar a moda inclusiva não é apenas uma falha ética — é uma miopia econômica.
Pessoas com deficiência representam um contingente expressivo de consumidores, com alto potencial de fidelização e impacto econômico, especialmente quando consideradas as redes familiares e de cuidado que influenciam diretamente as decisões de consumo.
Sob a ótica do ESG, a moda inclusiva dialoga diretamente com:
- Social (S): diversidade, inclusão, autonomia, dignidade e participação social efetiva;
- Governança (G): escuta qualificada, co-criação com usuários reais e decisões orientadas por impacto social concreto;
- Ambiental (E): integração da acessibilidade à moda sustentável, com uso de tecidos duráveis, processos responsáveis e redução do descarte precoce de peças inadequadas.
A inclusão não pode ser tratada como coleção cápsula, campanha pontual ou ação de marketing. Ela precisa estar integrada ao core business, ao design thinking, às decisões estratégicas e à cultura organizacional.
Exemplos do Cotidiano: Onde a Moda Decide Quem Participa da Vida Social
Pense em uma pessoa com deficiência que recebe um convite para uma entrevista de emprego, um casamento ou uma audiência judicial. A escolha da roupa não é apenas estética: ela define conforto, segurança, autonomia e autoconfiança.
Quando não existem opções adequadas, a exclusão acontece antes mesmo de qualquer discriminação explícita. A pessoa deixa de ir, depende de ajuda ou se sente inadequada. A moda, silenciosamente, impede o acesso ao espaço social.
Por outro lado, quando roupas inclusivas respeitam o corpo e a identidade, elas não apenas vestem — habilitam a presença.
Moda inclusiva, nesse sentido, não é produto de nicho. É infraestrutura social.
O Chamado às Empresas, Gestores e Formadores de Opinião
O avanço da moda inclusiva no Brasil é real, mas ainda insuficiente. Há marcas comprometidas, designers atentos e consumidores engajados, mas o movimento precisa sair da margem e ocupar o centro das decisões estratégicas.
Empresas que desejam liderar esse processo precisam:
- Ouvir pessoas com deficiência desde a concepção do produto — nada sobre nós, sem nós;
- Superar a lógica da adaptação mínima e investir em design universal com valor estético;
- Integrar moda inclusiva a políticas reais de ESG, e não apenas ao discurso institucional;
- Reconhecer que inclusão é inovação, reputação, mercado e responsabilidade social ao mesmo tempo.
Conclusão: A Moda que Inclui é a Moda que Humaniza
A forma como uma sociedade veste seus corpos revela quais vidas considera dignas de visibilidade. A moda inclusiva, quando pensada de maneira profunda, ética e estratégica, rompe com o capacitismo estrutural e reposiciona a pessoa com deficiência como sujeito de direitos, consumo e identidade.
Não se trata de criar roupas “especiais”. Trata-se de reconhecer que corpos diversos sempre existiram — e sempre existirão.
A moda do futuro não será apenas sustentável ou tecnológica.
Ela será inclusiva — ou não será legítima.

- * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.
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