Não Precisa Acender a Luz

Não Precisa Acender a Luz

Biografia assinada por Mauro Ventura relata a trajetória do empresário, cego desde os seis anos de idade, que desafiou o futuro e se tornou um dos maiores empreendedores e empresários no Brasil

Não Precisa Acender a Luz. Esse é o título da biografia do empreendedor Eurico Cunha, reconhecido como um dos maiores empresários do setor de restaurantes do país. Escrita pelo jornalista Mauro Ventura, com o selo da Editora Tinta Negra, a obra será lançada em abril.

Cego desde os seis anos de idade, Eurico teve na família o incentivo para a superação de todas as possíveis barreiras que pudessem aparecer em sua vida. Nunca se intimidou frente aos desafios, sempre com a certeza de que poderia vencê-los com conhecimento e determinação. Lutou contra as injustiças e as desigualdades – não apenas por ele, mas por toda a sociedade.

Fruto de longas conversas entre Eurico e Mauro, o livro traz depoimentos de amigos próximos e também de profissionais que atuaram com Eurico em diferentes momentos de sua carreira.

A biografia reforça cinco vertentes dessa história de vida, e já indica a continuação de um trabalho focando sempre na igualdade, equidade e inclusão de todos.

Empreendedorismo e Família

Eurico começou a desenvolver seu primeiro projeto profissional aos 14 anos, em 1958. Eram tempos em que os pais de crianças dessa idade, da típica classe média carioca, esperavam dos filhos obediência e bom desempenho nos estudos, nunca independência e empreendedorismo.

Faltava somente um ano para Eurico concluir o ginásio quando foi surpreendido pelo seu pai, que o chamou dizendo: “Já é tempo de você ser autossuficiente. Vou te dar um ano para que isso aconteça”.

Primeiro veio o susto, depois a sensação de injustiça. Eurico não entendia a cobrança. Imaginou que as boas notas eram suficientes para agradar ao pai … até porque seu irmão, dois anos mais velho, ainda não trabalhava.

Mas Eurico sempre foi movido a desafios e decidiu que faria tudo o que estivesse a seu alcance para vencer mais este. Assim aos 16 anos, ele iniciou o seu primeiro curso de inglês e cumpriu a exigência do pai, começando a ganhar seu dinheiro e estreando na carreira de professor – uma ocupação que o acompanharia por toda a vida, mesmo fora das salas de aula, a ponto de até hoje ele ser chamado por boa parte dos que o conhecem de “Professor”.

A história de sucesso de Eurico Cunha é uma história de família, como ele mesmo disse a Mauro Ventura:

“Já falei várias vezes do privilégio que tive de crescer num ambiente em que meus pais esperavam muito de mim, me desafiavam e exigiam o que tantas vezes achei excessivo e injusto. Mas eles se desdobravam para me oferecer as melhores oportunidades e condições de desenvolvimento. Apostavam em mim e celebravam os meus sucessos”.

Particularmente sobre o pai, ele disse:

“Precisei me tornar adulto para “conhecer meu pai” e reconhecer seu imenso valor na construção da minha personalidade e da minha história de vida. Desde cedo, percebi que a dureza dele comigo era fruto da confiança que sempre demonstrou na minha capacidade de superação. Ele sabia que eu era movido a desafios e que ultrapassava limites quando questionado.” E continua: “Não somos necessária e exclusivamente o que esperam de nós, mas com certeza as expectativas, os ditos e as atitudes dos “outros significativos” que nos cercam, balizam a formação do nosso “eu” … À minha família devo a capacidade de acreditar que é factível alcançar o que pode estar inacessível e manter a determinação de lutar para criar as condições que tornem viável o que era impossível.”

É impossível ser feliz sozinho

Para Eurico, nunca foi suficiente ter sucesso sozinho. Desde criança pensava no que fazer para sair do internato onde estava e tirar todas as crianças de lá para um lugar melhor. Pensava em um dia ser Presidente da República para “mudar a vida dos outros meninos cegos que estão aqui, e têm uma vida mais difícil que a minha”. Para transformar a realidade de todo mundo que não tem poder para melhorar a vida sozinho.

Desde jovem tinha consciência da importância de mudar a percepção sobre a cegueira e descontruir preconceitos. No seu dia-a-dia, defendia e buscava demonstrar que o cego pode fazer tudo: “só não pode ver, mas isso não o impede de fazer o que todo mudo faz”.

Essa era sua militância contra o preconceito, a exclusão e a injustiça; seu heroísmo do dia a dia, que ele diz que é muitas vezes mais desgastante e difícil do que o heroísmo de grandes momentos de bravura.

Na juventude e vida adulta exercitou, em vários momentos, esse compromisso com a defesa da justiça e da igualdade de oportunidades para todos: nos anos 50, já liderava uma “pequena rebelião” pela melhoria da alimentação no IBC; em 83 foi às ruas pelas Diretas Já; em 89 trouxe da China (e “adotou”) um jovem refugiado que participara dos protestos na Praça Tian’anmen; durante muitos anos manteve uma ONG para lutar por educação, emprego, inclusão e cidadania paras as pessoas com deficiência visual (COPA).

Não espere o convite. Organize a festa

Eurico ainda era muito criança quando tomou consciência de que não voltaria a enxergar. Não sabe se foi capaz de compreender plenamente tudo o que estava acontecendo, mas sabe que, ao mesmo tempo em que sentia medo e uma tristeza imensa, tomou a decisão de não deixar a cegueira paralisá-lo. Resolveu que não iria agir, viver e ser tratado como um deficiente.

Com apenas 8 anos, nos primeiros dias de Instituto Benjamim Constant, Eurico caminhava horas sozinho no pátio do local, pensando sobre o que fazer do seu futuro. Não iria ser dependente da família, nem jamais aceitaria despertar compaixão. Estava determinado a superar os obstáculos e ter uma vida autônoma e plena. Não sabia como, mas sabia que precisava vencer. A cegueira o impediria de ver. E só. Não iria tirar dele a chance de ser feliz.

O que terá levado Eurico a ter essa visão e a fazer essas escolhas? O que faz uma criança de 8 anos querer ser independente e buscar permanente superação?

Como surgiu maturidade tão precoce para que ele não ficasse esperando um milagre, uma cura mágica da cegueira e ao contrário, aceitasse ser cego e decidisse viver feliz? De onde vieram a segurança e a criatividade para ao invés de ser deixar excluir dos programas da galera que enxergava, ele se transformar no líder e idealizador das mais divertidas programações? Como ele desenvolveu a força, o equilíbrio emocional, a saúde mental para transformar desafios em vitórias?

Ele sempre soube que era possível. Mesmo quando não sabia como. E a cada desafio, foi lá e fez.

Lifeaholic

Eurico fez da sua própria vida uma festa.

É um cara cego, que desfilou em escola de samba, foi a eventos culturais inesquecíveis: dos Tenores na Itália aos festivais de Música Clássica em Salzburg e de Jazz em New Orleans; de Tony Benett e Cirque de Soleil em Las Vegas a Frank Sinatra e Paul McCartney no Maracanã. Ele viveu intensamente os anos 50 e 60. Viu o filme do Nelson Pereira dos Santos, ouviu Tom Jobim no começo da carreira, foi a apresentações de Nara Leão e depois Maria Bethânia no show Opinião. Que ama Chico, Caetano, Elis e os gênios todos da MPB; que inspirou Aldir Blanc e Ivan Lins a compor Cegos de Luz; que viajou pelo mundo e esteve em mais de 60 países dos quais, sem ver uma paisagem, conhece a beleza passando pelo melhor de suas culinárias, vinhos, museus e bibliotecas, povo e história. Andou nas geleiras de Ushuaia e observou os vulcões na Nova Zelândia, passeou pelas areias do Saara e sobrevoou o Grand Canyon.

Conhece o Brasil de ponta a ponta: já navegou no encontro das águas entre os rios Negro e Solimões e andou pelas vinícolas de Santana do Livramento, parando em quase todas as capitais e muitas praias e montanhas no caminho entre esses extremos.

Intensamente, esta é a melhor palavra para definir como Eurico vive: como sempre estudou, leu, trabalhou, se cuidou, se divertiu, fez amigos, amou. Até hoje.

É apaixonado pela vida, em todas as suas facetas. Definitivamente um lifeaholic.

Gastronomia

Eurico Cunha foi proprietário dos mais importantes restaurantes do Rio de Janeiro. Suas casas foram as primeiras a receber uma estrela Michelin no Brasil. Não sem motivo. Ele fez parcerias e abriu restaurantes com consagrados chefs como Claude Troigros (Eurico assumiu o restaurante do Jardim Botânico – RJ); Dânio Braga (de quem adquiriu o restaurante Enotria), Joachim Koerper, (chef 2 estrelas Michelin no seu restaurante Girassol, na Espanha, com quem Eurico fez o Eleven Rio); Felipe Bronze (com quem abriu os restaurantes Oro e Pipo) e Silvana Bianchi (Quadrifoglio). Também recebeu convites para se associar com personalidades icônicas do cenário internacional. Quando Alain Ducasse, o chef que tem o maior número de estrelas Michelin do mundo – 21, decidiu abrir o seu primeiro restaurante no Brasil, convidou Eurico para ser seu sócio. Quando Fidel Castro decidiu que o governo de Cuba deveria fazer investimentos diretos fora da Ilha, abriu com Eurico o restaurante La Isla, na zona sul do RJ.

E não é só a qualidade dos restaurantes abertos por Eurico que o qualifica como um extraordinário empreendedor. Ele chegou a ser proprietário de mais de 50 operações, sendo que nenhuma dessas unidades fazia parte de uma cadeia de fastfood ou de operações padronizadas. Cada restaurante era único, e dos mais variados perfis: franceses, italianos, contemporâneos, mediterrâneos, frutos do mar, cantinas e muitos outros.

Esse livro relata a história e a carreira de um dos maiores empreendedores da Gastronomia do Brasil. Admirável em qualquer circunstância. Inédita por ter sido construída por alguém que ficou completamente cego aos 6 anos. Foi internado numa escola para crianças cegas até os 13. Lutou para prosseguir com a sua formação acadêmica e chegou a ser mestre e coordenador do Mestrado em Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, e depois Consultor. Um homem que transformou desafios em sucesso.

Não Precisa Acender a Luz

Autores: Mauro Ventura e Eurico Cunha

Editora: Tinta Negra

Páginas: 402

Preço: R$ 103

SOBRE OS AUTORES

Mauro Ventura é jornalista e autor de O espetáculo mais triste da terra (vencedor do Prêmio APCA e finalista do Jabuti) e Os grandes casos do Disque Denúncia.

Destaca-se pela abordagem sensível e impactante de histórias humanas.

Eurico Cunha é administrador, consultor, professor e empresário. Formado pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, construiu uma carreira marcada pelo pioneirismo e inovação, sendo referência em gestão pública, empreendedorismo e acessibilidade.

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