Neurodivergência e empregabilidade: inclusão exige mais que cota, exige prática

Neurodivergência e empregabilidade: inclusão exige mais que cota, exige prática

Na Semana do Dia do Trabalho, debate sobre empregabilidade de pessoas com TEA ganha espaço e propõe mudanças estruturais e criativas 

Segundo a PNAD Contínua (2022), mais de 18,6 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de deficiência. Entre eles, estão pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) — condições que integram o espectro da neurodivergência e ainda são cercadas por estigmas, desinformação e despreparo institucional.

Embora o discurso corporativo sobre diversidade tenha ganhado espaço, a inclusão efetiva de pessoas neurodivergentes segue distante da prática. Uma pesquisa recente realizada pela Consultoria Maya, com apoio da Tismoo.me, Universidade Corporativa Korú e Órbi Conecta, revelou que 86,4% dos profissionais nunca participaram de treinamentos sobre neurodiversidade. Além disso, 62,9% identificam a falta de compreensão por parte de colegas e lideranças como a principal barreira à inclusão.

Apesar da obrigatoriedade legal estabelecida pela Lei de Cotas (nº 8.213/91), a realidade ainda é marcada por informalidade e exclusão. Em 2022, levantamento da Folha de S.Paulo mostrou que 55% dos trabalhadores com deficiência atuam em ocupações informais. O desafio não está apenas em abrir vagas, mas em garantir permanência, desenvolvimento e ambientes que compreendam e respeitem diferentes formas de funcionamento.

Em resposta à ausência de práticas estruturadas, abordagens como a arte-educação vêm se consolidando como estratégias eficazes de inclusão para pessoas neurodivergentes, especialmente em contextos de aprendizagem e formação profissional.

É com essa abordagem que o professor Nilson Sampaio, especialista em Educação Especial e inclusão, atua há mais de uma década. Com formação em Gravura e Artes Visuais, e experiência desde 2013 com pessoas com TEA e TDAH, Sampaio se dedica à criação de ambientes pedagógicos em que a arte é ponte, linguagem e transformação. “Não basta contratar — é preciso adaptar. O ambiente, as tarefas, a comunicação. A inclusão real parte da compreensão de que cada cérebro funciona de um jeito único”, afirma.

A trajetória da jovem artista curitibana Júlia Melc, de 22 anos, é reflexo direto desse trabalho. Estudante de Artes Visuais na PUCPR e aluna de Sampaio há mais de dez anos, Júlia vive de sua arte — vende quadros, cria estampas para marcas, dá aulas para alunos autistas e já publicou o livro Minha Alma Azul, onde compartilha sua vivência como pessoa neurodivergente. “O acompanhamento do professor me ajudou com novas técnicas. Ele é meu mentor”, conta.

“A arte dá linguagem a quem muitas vezes não é ouvido. Quando uma empresa entende isso, ela passa a enxergar o colaborador neurodivergente como alguém que expande a visão de mundo da equipe”, complementa Sampaio.

Na Semana do Dia do Trabalho, histórias como a de Júlia e iniciativas como a de Sampaio mostram que inclusão não deve ser exceção — e sim política. “Não é sobre encaixar essas pessoas num molde que não foi feito para elas. É sobre redesenhar os moldes. Quando falamos de trabalho e inclusão, falamos de pertencimento, dignidade e futuro”, completa Sampaio.

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