OPINIÃO
- * Por Igor Lima
Mesmo sendo o espaço que deveria oferecer acolhimento e proteção, a família ainda pode reproduzir preconceitos que impactam profundamente crianças com deficiência e suas mães.
Era para ser apenas mais um almoço de família.
A casa cheia, conversas cruzadas, crianças brincando e o barulho típico de um encontro familiar. Em meio a esse cenário, uma criança começa a se incomodar com o excesso de estímulos, cobre os ouvidos ou reage de forma diferente ao ambiente.
Antes que alguém tente compreender o que está acontecendo, surge o comentário:
“Essa criança precisa de limites.”
Situações como essa ainda fazem parte da realidade de muitas famílias que convivem com a deficiência.
Embora o preconceito contra pessoas com deficiência seja frequentemente associado a ambientes externos, como escolas ou espaços públicos, ele também pode surgir dentro da própria família — justamente o lugar onde se espera encontrar acolhimento e compreensão.
Quando a falta de informação gera julgamento
Grande parte das situações de preconceito dentro da família nasce da falta de informação.
Ainda existe pouca compreensão sobre as características e necessidades de crianças com deficiência ou transtornos do neurodesenvolvimento. Como resultado, comportamentos relacionados à condição da criança podem ser interpretados de forma equivocada.
Frases como “na minha época não existia isso”, “é só falta de disciplina” ou “precisa de mais limites” ainda são ouvidas por muitas mães.
Mesmo quando não há intenção de ferir, essas falas acabam reforçando estigmas e desconsiderando completamente a realidade da criança.
Constrangimento em momentos que deveriam ser de convivência
Eventos familiares que deveriam representar momentos de convivência e afeto podem se transformar em situações de tensão.
Ambientes com muito barulho, iluminação intensa ou grande circulação de pessoas podem ser desafiadores para algumas crianças com deficiência, especialmente aquelas com transtornos do espectro autista.
Quando a família não compreende essas particularidades, surgem olhares de reprovação, comentários inadequados ou atitudes de impaciência.
Para muitas mães, esses momentos são especialmente difíceis.
Além de lidar com a situação da criança, elas ainda precisam enfrentar julgamentos que partem justamente de pessoas próximas.
O impacto emocional sobre as mães
Quando o preconceito acontece dentro da própria família, o impacto emocional pode ser ainda mais profundo.
Muitas mães relatam sentir tristeza e frustração ao perceber que pessoas próximas não conseguem compreender os desafios que enfrentam diariamente.
Em alguns casos, esse cenário leva ao afastamento gradual de encontros familiares.
Para evitar situações constrangedoras ou proteger os filhos de comentários inadequados, algumas mães preferem reduzir a participação em eventos ou reuniões.
Esse distanciamento, embora muitas vezes necessário como forma de proteção, pode gerar ainda mais isolamento.
Informação e empatia como caminhos para a inclusão
Superar o preconceito dentro da família exige diálogo, informação e empatia.
Compreender a deficiência, conhecer as necessidades da criança e ouvir as experiências das mães são passos fundamentais para construir relações familiares mais respeitosas.
A convivência com a diversidade também representa uma oportunidade de aprendizado coletivo.
Quando familiares se abrem para compreender a realidade da deficiência, criam um ambiente mais acolhedor e seguro para todos.
O acolhimento começa dentro de casa
Construir uma sociedade inclusiva começa nas relações mais próximas.
A família tem um papel fundamental na formação de valores e na construção de ambientes onde a diferença seja respeitada.
Quando crianças com deficiência encontram apoio dentro do próprio lar, elas crescem com mais segurança, autoestima e senso de pertencimento.
Mais do que evitar preconceitos, é necessário promover uma cultura de acolhimento e empatia.
Porque, para muitas crianças, a inclusão começa dentro de casa.

- * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.
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