O primeiro lugar de estímulo à inclusão é na família

OPINIÃO

  • * Por Patrícia Stankowich

Quando se fala em inclusão de crianças com algum tipo de deficiência, naturalmente vem à mente a inclusão na escola, na sociedade e no mercado de trabalho. Porém,  a inclusão pertence a um contexto muito maior, e é preciso entender que o  primeiro local de inclusão é na família, onde um primeiro espaço precisa ser aberto quando uma criança com deficiência nasce.

Considerando a psicanálise, sabemos que a criança já nasce em um mundo pronto, com expectativas e idealizações daquilo que os pais desejam que ela seja, por isso essa criança antes mesmo de nascer já tem um espaço simbólico na família e na sociedade. Mas e quando o percurso não sai exatamente da maneira planejada e apresenta alguns entraves? 

É necessário ressaltar que a família é o primeiro espaço em que a criança precisa ser incluída e estimulada para depois ir para o mundo. Ou seja, é de fato onde começa a inclusão. E a inclusão precisa de autonomia, algo que  envolve vários aspectos quando se trata de uma pessoa com deficiência. 

Para começar, precisamos falar em autonomia pessoal, à qual se incluem atos cotidianos de sobrevivência. Todos temos um certo grau de autonomia pessoal e as crianças com algum comprometimento também precisam percorrer esse percurso. Ou seja, a família precisa compreender que, para além da deficiência, existe um sujeito ali que, quanto mais estimulado for, melhor. 

O segundo passo é treinar responsabilidades pessoais, como ensinar a criança a vestir uma roupa sozinha, tomar banho sozinha, e é um percurso ensinado. É assim que a criança vai se construindo como pessoa e vai se preparando para outros desafios além de casa. 

Depois, há um ajustamento social, já que a criança precisa aprender a socializar, a se conectar com outras crianças e compartilhar. E, finalmente, vem a preparação para o mercado de trabalho. 

Muitas vezes a família acredita que o jovem com T21 (Síndrome de Down), por exemplo, precisa trabalhar quando chega a determinada idade, mas é necessário ter o cuidado de não impor isso a ele, até porque se a criança é estimulada desde pequena a estar com pessoas, estudar e se desenvolver, provavelmente ela vai querer lá na frente trabalhar, mas e se não for estimulada?

Percebo também que ainda há resistência em entender a necessidade de acompanhamento psicológico das crianças com deficiência. E a criança com deficiência vai se desenvolver com mais ou menos prejuízo quanto mais cedo for estimulada. Há pessoas com síndrome de Down com mais dificuldades do que outras, e a diferença está no acompanhamento subjetivo que muitas vezes é negado. 

Com tudo isso, é necessário entender que estimular os filhos e orientar para que tenham responsabilidade é algo que exige muito dos pais, mas é necessário. Basta inserir passos pequenos, como pedir para a criança colocar água para o cachorro, lavar a louça ou arrumar a própria cama. São esses passos que levam o indivíduo a ganhar autonomia para questões maiores e mais complicadas.

Outras coisas que precisam ser estimuladas e desenvolvidas são a organização temporal, ou seja, a criança saber que dia é hoje ou quantos dias tem na semana; a organização de espaço e simbolização, o que significa saber a função do dinheiro, do salário e qual o sentido do trabalho; e o desejo, algo bastante subjetivo. A criança com deficiência precisa saber o que quer e o que faz sentido para ela, e é através do estímulo que ela poderá avançar em seu potencial.

  • Patrícia Stankowich é uma psicóloga multifacetada, circense de nascença, graduada em Filosofia pela UFOP, graduada em Psicologia pelo CESMAC, possui especializações em Psicologia Jurídica e mestrado em Psicologia da Saúde. Como facilitadora em capacitações nas áreas da Saúde e Educação, ela é uma voz autoritária na promoção da inclusão, com atendimento clínico a adultos e especialização na clínica de crianças com comprometimentos no desenvolvimento e deficiência.

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