Médica da Sociedade Brasileira de Nefrologia alerta para os sintomas que podem indicar condições ultrarraras que, se não tratadas, resultam em falência renal
Pequenas mudanças na cor, no odor e na aparência da urina podem ser sinais importantes de que algo não vai bem com a saúde dos rins[i]. Neste mês do Rim, a nefrologista Dra. Maria Helena Vaisbich (CRM SP 49436), coordenadora do Comitê de Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Nefrologia (COMDORA-SBN), recomenda “prestar atenção a esses sinais simples do dia a dia que podem contribuir para o diagnóstico precoce de doenças renais com evolução silenciosa”.
O envelhecimento populacional e o aumento de fatores de risco, como obesidade, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, ajudam a explicar por que a Doença Renal Crônica (DRC) representa um desafio global de saúde pública, mas essas não são as únicas causas[ii]. Existem outras condições que podem levar à falência renal, como as doenças renais raras[iii].
Uma delas é a Glomerulopatia por Complemento 3 (C3G), uma doença renal ultrarrara causada por uma parte do sistema imunológico, o sistema complemento, que danifica os rins[iv],[v]. Quando desregulado, esse sistema desencadeia um processo inflamatório que compromete a funcionalidade dos glomérulos, estruturas responsáveis por filtrar o sangue e colaborar na produção da urina[vi],[vii],[viii].
“Apesar de acometer uma quantidade menor de pessoas, essas doenças raras podem progredir de forma significativa, comprometendo a função dos rins, além da saúde geral e da qualidade de vida dos pacientes[ix]. Cerca de 50% dos casos de C3G, se não devidamente diagnosticados e tratados, evoluem para insuficiência renal em até 10 anos, levando o indivíduo a ter que fazer diálise e transplante renal[x]”, alerta a nefrologista.
No caso da C3G, um dos sinais de alerta é a urina espumosa, causada pela presença anormal de proteínas na urina4. Os rins funcionam com um filtro, mantendo substâncias essenciais para o organismo, eliminado as toxinas e o excesso de líquidos pela urina2. “A presença de proteína na urina pode indicar que essa ‘filtragem’ não está ocorrendo adequadamente1. Por isso, é fundamental que seja realizada uma avaliação médica para investigar a causa da alteração. A alteração da urina pode ser um importante sinal de que algo não vai bem”, esclarece a especialista.
Além da urina espumosa, pacientes com C3G podem apresentar inchaço, pressão alta, fadiga, ansiedade e depressão4. Por serem inespecíficos, porém, esses sinais podem ser confundidos com outras doenças, atrasando o diagnóstico12. Uma das manifestações iniciais da condição pode ser uma nefrite, uma inflamação dos rins, que pode ocorrer depois de um quadro de infecção de garganta ou de pele[xi]
A C3G costuma afetar pessoas de todas as idades, começando muitas vezes na infância e impactando principalmente indivíduos em idade produtiva4,[xii]. Para identificar a C3G, é necessária uma biópsia renal[xiii].
De acordo com a Dra. Maria Helena, alterações na urina também podem indicar outras enfermidades. “A urina pode conter sangue em algumas condições, como na Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN), outra doença ultrarrara, entre outras[xiv].
Odor forte e persistente, dor ao urinar ou redução ou aumento significativo do volume urinário também merecem atenção e avaliação médica, pois podem sinalizar desde infecção urinária, cálculos renais até outras patologias1”, reforça a Dra. Maria Helena.
Quando os rins são afetados
A Doença Renal Crônica (DRC) afeta milhões de pessoas em todo o mundo e é considerada um problema de saúde pública[xv]. No Brasil, em março de 2024, das 180.510.202 pessoas cadastradas na Atenção Primária à Saúde, 227.478 tinham DRC[xvi].
“Um dos principais desafios da DRC, é que, nas fases iniciais, a doença pode não apresentar sintomas claros2. Por isso, a observação da urina e a realização periódica de exames simples, como o exame de urina e a dosagem de creatinina no sangue, são fundamentais para o diagnóstico precoce1,[xvii]”, conclui a Dra. Maria Helena.
[i] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/news-stories/what-your-urine-says-about-your-kidney-health. Acesso em fevereiro de 2026.
[ii] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/chronic-kidney-disease-ckd. Acesso em fevereiro de 2026.
[iii] Kidney Research UK. Disponível em: https://www.kidneyresearchuk.org/2025/09/24/the-devastating-impact-of-rare-kidney-diseases/. Acesso em fevereiro de 2026
[iv] National Kidney Foundation. Complement 3 Glomerulopathy (C3G): Knowing the Signs and Symptoms. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/complement-3-glomerulopathy-c3g. Acesso em outubro de 2025.
[v] Heiderscheit AK, Hauer JJ, Smith RJH. C3 glomerulopathy: Understanding an ultrarare
complement-mediated renal disease. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2022 Sep;190(3):344-357.
[vi] Koscielska-Kasprzak K,Bartoszek D. Myszka M, Zabinska M, Klinger M. Arch Immunol Ther Exp (Warsz). 2014;62(1):47-57.
[vii] De Vriese AS, Sethi S, Van Praet J, Nath KA, Fervenza FC.J Am Soc Nephrol. 2015, 26(1@):2917-2929
[viii] Lukawska E, Polcyn-Adamczak M, Niemir Zl. Clin Exp Med.2018;18(3):297-318.
[ix] Oxford Academic. Disponível em: https://academic.oup.com/ndt/article/39/2/202/7246920. Acesso em março de 2026.
[x] Martín B, Smith RJH. In: Adam MP, Feldman J, Mirzaa GM, et al., editors. C3 Glomerulopathy. GeneReviews®. Updated 2018. University of Washington, Seattle; 1993-2024. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK1425/. Acesso em setembro de 2025.
[xi] Ponticelli, C.; Calatroni, M.; Moroni, G. C3 glomerulopathies: dense deposit disease and C3 glomerulonephritis. Frontiers in Medicine, 2023. DOI: 10.3389/fmed.2023.1289812. This review notes that C3 glomeropathy clinical presentation is variable and may include symptoms typical of glomerulonephritis (inflammation of the glomeruli), which reflects a non-infectious inflammatory renal condition. Frontiers
[xii] BOMBACK, A. S. Complement 3 glomerulopathy (C3G): 5 differential diagnoses to know. Medscape Nephrology, 2025.
[xiii] My Cleveland Clinic. Disponível em https://my.clevelandclinic.org/health/procedures/21160-kidney-biopsy. Acesso em dezembro de 2025.
[xiv] Cleveland Clinic. Disponível em: https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/22871-paroxysmal-nocturnal-hemoglobinuria. Acesso em março de 2026.
[xv] KDIGO 2024. Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) CKD Work Group DOI: https://doi.org/10.1016/j.kint.2023.10.018
[xvi] Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico. Volume 55, nº 12 Cenário da doença renal crônica no Brasil no período de 2010 a 2023. Brasília, 11 set. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-12.pdf. Acesso em fevereiro de 2026.
[xvii] National Kidney Foundation. Disponível em: https://www.kidney.org/kidney-topics/tests-to-check-your-kidney-health. Acesso em março de 2026.
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