Quando a linguagem se perde, a pessoa desaparece: Macabéa e a deficiência invisibilizada

Quando a linguagem se perde, a pessoa desaparece: Macabéa e a deficiência invisibilizada - OPINIÃO - Por Jairo Bianeck

OPINIÃO

  • Por Jairo Bianeck

A personagem Macabéa, criada por Clarice Lispector em A Hora da Estrela, costuma ser lida como símbolo da pobreza, da migração e da invisibilidade social. No entanto, há uma leitura ainda mais atual e necessária: Macabéa pode ser compreendida como metáfora da pessoa que, ao perder a linguagem, a autonomia ou a capacidade de comunicação, passa a ser invisibilizada pela sociedade.

Na vida real, isso acontece com frequência quando alguém sofre um AVC grave. Em pouco tempo, a pessoa que antes falava, trabalhava, decidia e ocupava espaços sociais pode passar a depender de outros para se comunicar, se locomover ou compreender o mundo ao redor. Quando essa pessoa não possui recursos financeiros, rede de apoio ou acesso adequado à reabilitação, a exclusão costuma ser rápida e silenciosa.

O que se perde não é apenas uma função neurológica. Perde-se, sobretudo, o lugar social.

Macabéa vive algo semelhante desde sempre. Ela tem uma linguagem limitada, não consegue nomear seus desejos, não entende plenamente a violência que sofre e não possui instrumentos para reivindicar dignidade. Por isso, não é ouvida, não é levada a sério e não é percebida como alguém que “importa”. Ela existe, mas não conta.

Essa lógica também atinge muitas pessoas com deficiência: quanto menor a capacidade de comunicação socialmente valorizada, menor o reconhecimento da humanidade plena. A sociedade contemporânea tende a valorizar quem fala bem, produz rápido, decide sozinho e consome. Quem foge desse padrão é empurrado para fora do campo de visibilidade.

É importante dizer: a invisibilização não acontece porque a pessoa perdeu valor humano. Ela acontece porque a sociedade não sabe ou não quer lidar com a dependência, a lentidão e o silêncio.

No caso de uma deficiência adquirida, como após um AVC, o impacto é ainda mais cruel. A pessoa sabe o que perdeu. Sabe que antes era vista, escutada, considerada. Já Macabéa nunca teve essa experiência. Ela não perdeu um lugar; ela nunca o teve. Ainda assim, o destino social final é parecido: isolamento, apagamento e ausência de escuta.

Clarice Lispector nos obriga a olhar para essa realidade sem filtros. Ao criar uma personagem quase sem linguagem, a autora expõe uma pergunta incômoda: o que acontece com alguém quando não consegue mais se expressar do modo que a sociedade exige?

Essa pergunta é central para o debate sobre deficiência, capacitismo e inclusão. Pessoas com deficiência não são invisíveis por natureza. Elas são invisibilizadas por uma estrutura social que associa valor humano à performance, à produtividade e à comunicação padronizada.

Macabéa, assim como muitas pessoas com deficiência, não precisa ser “consertada” para existir. É a sociedade que precisa mudar para reconhecer que dignidade não depende de fala perfeita, autonomia total ou desempenho econômico.

Enquanto isso não acontece, continuaremos produzindo muitas Macabéas fora da literatura, pessoas que vivem, mas não são vistas.

  • Jairo Bianeck é advogado, militante do campo progressista e Defensor dos Direitos das Pessoas com Deficiência

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