Ministério da Saúde nega incorporação de medicamento para doença rara no SUS

Até 4 de fevereiro, a consulta pública aberta pelo órgão técnico da pasta, ouvirá a opinião da sociedade a respeito da inclusão de medicamento para adultos com raquitismo hipofosfatêmico ligado ao cromossomo X (XLH)

A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que avalia a inclusão de novas tecnologias no sistema público de saúde, acabou de emitir um parecer negativo sobre a inclusão do medicamento burosumabe no Sistema Único de Saúde (SUS). Com isso, foi aberta a consulta pública (CP) Nº 04. Até 4 de fevereiro, pacientes, familiares, profissionais de saúde, gestores públicos e privados, poderão participar da CP e opinar sobre o oferecimento da medicação no SUS.

“O parecer desfavorável do Ministério da Saúde é desastroso para a comunidade de XLH que precisa de acesso ao medicamento. O ano de 2021 foi um marco porque tivemos a incorporação da terapia para pacientes pediátricos com diagnóstico genético, contudo, ainda existe um gargalo porque os adultos com a doença continuam sem acesso ao medicamento. É fundamental garantir que todos os pacientes elegíveis, independentemente da idade, tenham acesso ao cuidado adequado. Estamos falando de uma doença progressiva e incapacitante” explica Wesley Pacheco, presidente da associação de pacientes, Instituto Amor e Carinho (IAC).

Entre os argumentos para o parecer negativo da Conitec estão a falta de evidências clínicas e impacto orçamentário. “Os estudos clínicos do medicamento são robustos e apresentam resultados significativos para quem tem a condição. Nós, como associação de pacientes, acompanhamos adultos com XLH que não sabiam o que era qualidade de vida antes do acesso à terapia – e que hoje, com o acesso, tiveram as suas vidas transformadas. Já em relação ao custo da terapia, ele é compatível aos demais tratamentos de doenças raras e ultrarraras”, avalia o líder do IAC.

Causado por uma variante patogênica em um gene que sintetiza uma proteína essencial para o organismo, responsável pela regulação do metabolismo do fosfato, o raquitismo hipofosfatêmico ligado ao cromossomo X (XLH) é uma doença crônica e progressiva. De acordo com a nefrologista pediátrica, Maria Helena Vaisbich, apesar das manifestações da doença começarem, geralmente, quando a criança começa a ficar em pé e andar – o tratamento é mais que necessário na idade adulta. “Trata-se de uma enfermidade permanente que se mantém ativa ao longo da vida. Jovens e adultos não enfrentam apenas sequelas da fase pediátrica, mas também podem desenvolver novas complicações graves, como calcificações de tendões, fraturas, pseudofraturas, osteoartrite, fragilidade muscular e rigidez articular – visto que a doença continua a progredir. Como resultado, enfrentam dor intensa e mobilidade reduzida. Além das questões ortopédicas, esses pacientes têm alta morbidade e estão em risco de desenvolver hiperparatireoidismo e doenças cardíacas”, ressalta a especialista.

Próximos passos: após o encerramento da consulta pública Nº 04, a Conitec analisará as contribuições recebidas e emitirá sua recomendação final. “A participação da população na consulta pública é fundamental. Ela é um instrumento social muito importante – uma vez que a inclusão deste medicamento no SUS, para adultos, assegurará o acesso ao tratamento para aqueles que mais necessitam”, conclui Wesley.

Entenda os impactos do XLH

Um estudo desenvolvido sobre os impactos do XLH ao longo da vida¹ revela que adultos com a doença relataram comorbidades associadas a doenças infantis não resolvidas. Os resultados sugerem que tanto as crianças como os adultos com XLH, vivem com uma doença crônica, progressiva e debilitante que causa dor, rigidez, afeta a mobilidade bem como a qualidade de vida. Os sintomas e condições não resolvidos na infância levam a complicações substanciais na idade adulta e complicações adicionais surgem quando a condição progride.

O levantamento evidencia, ainda, que as classificações de dor óssea foram maiores nos indivíduos que relataram histórico de fraturas. Há também dados que apontam como os sintomas e as condições clínicas da doença nesta faixa etária podem impactar a mobilidade: 90% dos adultos apresentam rigidez articular ou amplitude de movimento restrita, 86% dos respondentes do estudo relataram atraso na caminhada, problemas com a marcha ou maneira incomum para caminhar/correr, 60% sentem fraqueza muscular e 31% utilizam algum aparelho para caminhar.¹

Há também, na literatura, um estudo de vida real publicado em 2024.² “Esse estudo realizado com brasileiros comprova que, sem cuidado adequado, os pacientes desenvolvem uma dependência de analgésicos e antinflamatórios – além de mostrar o quanto essas pessoas são submetidas a um número considerável de cirurgias que, infelizmente, não proporcionam grandes melhoras na funcionalidade. Por isso, a importância do tratamento adequado e contínuo. O burosumabe, ao aumentar a reabsorção de fosfato nos rins e a produção da forma ativa da vitamina D, age de maneira precisa e muda o curso natural da doença”, reforça a especialista.

Sobre o XLH: é uma doença progressiva, que pode trazer graves consequências para os pacientes e comprometer a qualidade de vida. Assim como acontece com 80% das doenças raras, o XLH tem origem genética, sendo geralmente herdado. Neste caso, devido à sua relação com o cromossomo X, o pai afetado pelo XLH transmitirá a condição a todas as suas filhas, mas nenhum de seus filhos será acometido. Já a mãe afetada pelo XLH tem 50% de chance de ter um filho ou uma filha com a doença. Entre os sintomas da doença estão deficiência de crescimento, alargamento dos punhos, joelhos e tornozelos, dor nos membros inferiores, alterações dentárias, fraqueza muscular, limitação funcional e pernas arqueadas. No Brasil, ainda não há um estudo epidemiológico que indique o número exato de indivíduos afetados por essa condição rara.

Referências

¹ The Lifelong Impact of X-Linked Hypophosphatemia: Results From a Burden of Disease Survey. Clinical Research Article. July 2019 | Vol. 3, Iss. 7. doi: 10.1210/js.2018-00365 | Journal of the Endocrine Society | 1321–1334

² Real-world data of Brazilian adults with X-linked hypophosphatemia (XLH) treated with burosumab and comparison with other worldwide cohorts

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Aviso de Direitos Autorais

Todos os direitos sobre os conteúdos publicados em todas as mídias sociais do Diário PcD, incluindo textos, imagens, gráficos, e qualquer outro material, estão reservados e são protegidos pelas leis de direitos autorais.
Todos os Direitos Reservados.
Nenhuma parte das publicações em todas as mídias sociais do Diário PcD devem ser reproduzidas, distribuídas, ou transmitidas de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação, ou outros métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por escrito do titular dos direitos autorais, de acordo com a legislação vigente.
Para solicitações de permissão para usos diversos do material aqui apresentado, entre em contato por meio do e-mail jornalismopcd@gmail.com ou telefone 11.99699 9955.
A infração dos direitos autorais é uma violação de Lei Federal 9.610, passível de sanções civis e criminais.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore