OPINIÃO
- * Por Marina Lima
Falar sobre autismo ainda costuma remeter ao momento do diagnóstico. No entanto, na prática clínica, sabemos que o Transtorno do Espectro Autista se manifesta muito antes disso. Os primeiros sinais não surgem no consultório, eles aparecem no dia a dia, nas interações mais simples, e podem ser observados por quem convive com a criança.
Um dos sinais mais frequentes é o atraso no desenvolvimento da linguagem, muitas vezes antes dos dois anos de idade. Mas ele não vem sozinho. Também podem estar presentes o contato visual reduzido, a dificuldade de responder ao nome e alterações na chamada atenção compartilhada, quando a criança não aponta para mostrar algo ou não acompanha o olhar do adulto. Esses são indícios importantes, que muitas vezes passam despercebidos ou são interpretados como variações do desenvolvimento.
Outro aspecto que merece atenção está na forma como a criança brinca. Padrões repetitivos, interesse por partes específicas de objetos ou o uso não funcional de brinquedos podem indicar um desenvolvimento diferente do esperado. Ainda assim, é comum que esses comportamentos sejam minimizados, reforçando a ideia de que é preciso “esperar para ver”.
Essa postura, embora compreensível, pode atrasar o início de um acompanhamento que faz toda a diferença. Diante dos primeiros sinais, é fundamental agir com celeridade. Quanto antes a intervenção é iniciada, melhores são as possibilidades de resposta, especialmente nos primeiros anos de vida, quando o cérebro apresenta maior capacidade de adaptação.
O diagnóstico do autismo é clínico e depende da avaliação de uma equipe especializada. Não existem exames específicos que confirmem o transtorno. Por isso, o olhar qualificado de profissionais preparados é essencial, tanto para identificar sinais quanto para diferenciar o autismo de outras condições do desenvolvimento. Uma avaliação interdisciplinar permite compreender a criança de forma mais ampla, considerando aspectos de comunicação, socialização, comportamento, além de questões motoras e sensoriais.
Outro ponto importante é que não é necessário aguardar um diagnóstico fechado para iniciar a intervenção. Diante de sinais de risco, o acompanhamento já deve começar. Esse é um dos equívocos mais comuns observados na prática clínica. Esperar pode significar perder um período valioso para o desenvolvimento, reduzindo as possibilidades de avanço.
A intervenção precoce tem impacto direto em áreas fundamentais, como linguagem, interação social, comportamento e autonomia. Além disso, ela não se restringe ao ambiente terapêutico. A orientação à família é parte essencial do processo, pois permite que os estímulos sejam incorporados à rotina da criança, potencializando os resultados.
Falar sobre autismo é, acima de tudo, falar sobre tempo. Tempo de observar, de escutar e, principalmente, de agir. Identificar sinais precocemente não significa rotular, mas oferecer à criança a oportunidade de desenvolver seu potencial. O diagnóstico é apenas uma parte do processo, e ele começa muito antes, naquilo que a criança já demonstra no seu cotidiano.

* Marina Lima é psicóloga analista do comportamento do Grupo Gaiadi (Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil), em Ribeirão Preto/SP






