Barreiras técnicas e falta de profissionais capacitados deixam pacientes vulneráveis a infecções e dor crônica; especialista alerta que saúde bucal precisa ser integrada ao cuidado essencial de idosos e acamados
O Brasil contabiliza 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais, segundo dados mais recentes divulgados pelo IBGE em 2025. O dado ajuda a dimensionar um desafio ainda pouco enfrentado na saúde, que é o acesso ao atendimento odontológico especializado para pessoas com deficiência, público que frequentemente encontra barreiras estruturais, técnicas e comportamentais no momento de buscar cuidado.
Para a dra Cristiane Vasconcellos, mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora da Odontolar, clínica especializada no atendimento a idosos, pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, a dificuldade começa antes mesmo da consulta. “O atendimento odontológico especializado para pessoas com deficiência não se resume a adaptar uma cadeira ou facilitar o acesso físico. Existe uma necessidade real de preparo técnico, comunicação adequada, paciência e entendimento clínico sobre limitações motoras, cognitivas e comportamentais que mudam completamente a condução do cuidado”, afirma.
O problema se torna ainda mais complexo diante da sobreposição entre deficiência, envelhecimento populacional e a necessidade de cuidados contínuos. Os últimos dados divulgados pelo IBGE mostram que 45,4% das pessoas com deficiência no país têm 60 anos ou mais, o que amplia a pressão sobre serviços de saúde, atendimento domiciliar e estruturas preparadas para pacientes com maior grau de dependência.
A cirurgiã dentista afirma que, no caso de pacientes com deficiência, o atraso no atendimento tende a agravar riscos que poderiam ser evitados. “Quando a higiene bucal e o acompanhamento odontológico falham, o paciente pode desenvolver quadros infecciosos, dor crônica, dificuldade alimentar e piora de condições sistêmicas já existentes. Em pacientes mais fragilizados, isso pode acelerar hospitalizações e comprometer a recuperação clínica.”
Atendimento odontológico especializado exige mais do que acessibilidade
A percepção de que basta adequar a estrutura física para atender esse público, segundo a especialista, é insuficiente. O atendimento odontológico especializado demanda avaliação individualizada, integração com cuidadores e, em muitos casos, adaptação do próprio modelo assistencial.
“Há pacientes que não conseguem permanecer longos períodos sentados, outros apresentam hipersensibilidade sensorial, limitações cognitivas ou dificuldade de comunicação. Isso exige outra lógica de atendimento, outro tempo clínico e, muitas vezes, atendimento domiciliar ou hospitalar”, explica.
A especialista observa que a odontologia ainda opera com baixa capilaridade nesse tipo de assistência, especialmente fora dos grandes centros ou em modelos convencionais de consultório. O impacto recai diretamente sobre famílias e cuidadores, que muitas vezes adiam tratamentos por dificuldade logística, falta de profissionais capacitados ou receio sobre a condução do atendimento.
Essa deficiência no atendimento também traz reflexos econômicos para o sistema de saúde. Procedimentos preventivos tendem a custar menos do que intervenções emergenciais, especialmente quando complicações odontológicas acabam associadas a infecções, internações ou agravamento de doenças já instaladas.
“Quando o cuidado odontológico especializado entra de forma preventiva, reduzimos sofrimento, melhoramos a qualidade de vida e evitamos que um problema inicialmente simples se transforme em uma intercorrência clínica mais complexa. A saúde bucal precisa ser tratada como importante, na integração sistêmica desses pacientes”, diz Cristiane.
Diante da sua prática na odontologia voltada a idosos, pessoas com deficiência e pacientes acamados, Cristiane projeta que o avanço demográfico e o aumento da longevidade tornarão esse debate ainda mais urgente. Ela pontua que, com o envelhecimento da população brasileira e o crescimento da demanda por atendimento domiciliar, o sistema precisará incorporar o cuidado odontológico especializado como parte da assistência integral à saúde.
Fonte de pesquisa
IBGE
Organização Mundial da Saúde (OMS) — Saúde bucal global
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/oral-health?utm_source=chatgpt.com





