Viver mais tem se tornado uma realidade cada vez mais presente no Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país já ultrapassa a expectativa de vida de 75 anos, em meio a um processo acelerado de envelhecimento populacional. Nesse cenário, cresce também o número de pessoas com deficiência que chegam à velhice. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência.
DESAFIOS SE ACUMULAM AO LONGO DA VIDA
O envelhecimento da pessoa com deficiência traz uma sobreposição de dificuldades. Além das limitações já existentes, o avanço da idade pode provocar doenças crônicas, perda de mobilidade, fragilidade física, alterações cognitivas e maior dependência para atividades do dia a dia.
No Brasil, esse cenário é agravado por barreiras arquitetônicas, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, transporte inadequado, baixa oferta de cuidadores qualificados e uma rede de cuidado ainda insuficiente e pouco integrada. O isolamento social também se torna um risco frequente, especialmente quando familiares cuidadores envelhecem ou deixam de exercer esse papel.
A gerontóloga Claudia Alves explica que essa realidade exige uma visão mais ampla do processo de envelhecimento. Segundo ela, o envelhecer com deficiência não pode ser analisado de forma isolada, já que envolve tanto fatores físicos quanto sociais e estruturais. Nesse sentido, ela afirma que “o envelhecimento da pessoa com deficiência traz desafios que vão além das limitações físicas já existentes”, que destaca que a condição se soma às mudanças naturais da idade.
A especialista também chama atenção para a forma como o sistema de cuidado funciona no país, muitas vezes de maneira desconectada. Para ela, “o que vemos é uma rede que atende ou a deficiência ou o envelhecimento, mas raramente consegue integrar os dois de forma contínua e eficiente”, o que gera lacunas importantes na assistência.
AUTONOMIA COMO PARTICIPAÇÃO E NÃO INDEPENDÊNCIA TOTAL
O envelhecimento com qualidade de vida depende de planejamento, acesso a serviços e suporte contínuo ao longo da vida. Nesse contexto, especialistas reforçam que autonomia não significa independência total, mas sim a possibilidade de participação ativa nas decisões.
Claudia Alves define esse conceito ao explicar que “a autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas ter condições de participar das decisões sobre a própria vida e receber os apoios necessários para exercer sua cidadania”. Ela destaca ainda que esse processo deve ser construído ao longo dos anos, com investimento em prevenção, reabilitação contínua e acessibilidade.
Para a gerontóloga, quanto mais cedo essas ações são incorporadas à rotina, maiores são as chances de preservar funcionalidade e qualidade de vida na velhice. “Quanto mais cedo forem planejados os cuidados para o envelhecimento, maiores são as chances de preservar a independência e a qualidade de vida”, afirma.
SISTEMA AINDA ENFRENTA FRAGILIDADES
Embora o Brasil tenha avançado em legislações de proteção à pessoa com deficiência e à pessoa idosa, ainda há desafios importantes na prática. A falta de integração entre áreas como saúde, assistência social, mobilidade e habitação dificulta a construção de uma rede de cuidado efetiva.
Segundo Claudia Alves, trata-se de um fenômeno relativamente recente no campo das políticas públicas. Ela explica que “o envelhecimento das pessoas com deficiência é um fenômeno relativamente recente e crescente, que exige políticas integradas entre saúde, assistência social, habitação, mobilidade e inclusão”.
Na prática, porém, ainda há desigualdades regionais e serviços fragmentados, o que compromete a continuidade do cuidado.
REDE DE APOIO É FUNDAMENTAL
Nesse cenário, a rede de apoio desempenha papel central na garantia de dignidade e qualidade de vida.
A gerontóloga ressalta que ninguém envelhece sozinho e que o suporte coletivo é decisivo para a inclusão social. Ela afirma que “nenhuma pessoa envelhece sozinha. A rede de apoio exerce papel fundamental na promoção da dignidade, da autonomia e da inclusão”.
Por fim, destaca que o envelhecimento digno depende de uma mudança de olhar sobre a pessoa com deficiência, indo além das limitações. Para ela, isso acontece quando “a pessoa com deficiência é vista não pelas suas limitações, mas por suas potencialidades, sua história e seu direito de viver com respeito, autonomia e qualidade de vida em todas as fases da vida”.





