Menos holofotes, mais conquistas: a lição que o Brasil precisa aprender com os paratletas brasileiros

Menos holofotes, mais conquistas: a lição que o Brasil precisa aprender com os paratletas brasileiros - OPINIÃO - * Por Abrão Dib

OPINIÃO

  • Por Abrão Dib

A recente eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de Futebol reacende um debate que vai muito além do resultado dentro de campo.

O futebol continuará sendo a maior paixão nacional, movimentando bilhões de reais, patrocinadores, direitos de transmissão e enorme atenção da mídia.

No entanto, nesse momento também convidamos a sociedade brasileira a refletir sobre outra realidade esportiva: a extraordinária trajetória dos atletas paralímpicos brasileiros, que, mesmo recebendo investimentos significativamente menores e enfrentando inúmeras barreiras, colocam o Brasil entre as maiores potências do esporte paralímpico mundial.

Os dados demonstram uma significativa assimetria na destinação de recursos e na visibilidade entre o futebol de alto rendimento e o esporte paralímpico. Enquanto a Seleção Brasileira masculina contou com despesas da ordem de R$ 196 milhões no ano da Copa do Mundo do Catar, o movimento paralímpico, responsável por colocar o Brasil entre as maiores potências esportivas do mundo, opera com um volume de recursos institucionais substancialmente menor. Essa realidade evidencia a necessidade de ampliar os investimentos públicos e privados no esporte paralímpico, sem desmerecer a importância econômica e cultural do futebol.

O orçamento anual dos principais clubes brasileiros de futebol frequentemente supera R$ 500 milhões, e alguns ultrapassam R$ 1 bilhão por temporada, impulsionados por direitos de transmissão, publicidade, bilheteria e patrocínios privados.

Individualmente, grandes contratos de patrocínio master no futebol podem ultrapassar R$ 100 milhões por ano.

Em 2022 (ano da Copa do Mundo do Catar): a CBF destinou R$ 196,4 milhões à Seleção Brasileira principal masculina. Mas ainda não existem oficiais dos investimentos na Copa de 2026.

O Brasil construiu, nas últimas décadas, uma história de excelência nas competições paralímpicas. Em praticamente todas as edições dos Jogos Paralímpicos, nossos atletas conquistam dezenas de medalhas e figuram entre as principais delegações do planeta, resultado de talento, disciplina e dedicação permanente.

Esses resultados, entretanto, contrastam com as dificuldades enfrentadas diariamente pelos paratletas.

O principal contrato institucional do movimento paralímpico brasileiro para todo o ciclo até Paris 2024 foi de R$ 35 milhões, destinado a beneficiar diversas modalidades, centros de treinamento e mais de uma centena de atletas de alto rendimento. Essa comparação evidencia que, embora o Brasil seja uma das maiores potências paralímpicas do mundo — encerrando Paris 2024 na 5ª colocação do quadro de medalhas, com 88 medalhas —, o volume de recursos destinados ao esporte paralímpico permanece muito inferior ao que circula no futebol profissional.

Em 2016 nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro os brasileiros conquistaram 72 medalhas e ficaram em 8º lugar.

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 ficamo em 7º lugar. Em 2024, nos Jogos Paralímpicos de Paris o Brasil ficou em 5º lugar.

Para chegar a esses resultados impressionantes, muitos desses paratletas iniciam suas carreiras sem estrutura adequada, dependendo do apoio de familiares, enfrentando escassez de patrocinadores, dificuldade de acesso a equipamentos esportivos de alta tecnologia, centros de treinamento insuficientes e pouca visibilidade na imprensa.

Mesmo diante dessas dificuldades, conseguem alcançar resultados extraordinários e representar o Brasil com excelência nas maiores competições internacionais.

Não se trata de estabelecer uma disputa entre o futebol e o esporte paralímpico. O futebol possui enorme relevância econômica, cultural e social. O problema reside no profundo desequilíbrio na distribuição da atenção, dos investimentos e do reconhecimento.

Enquanto o futebol movimenta cifras bilionárias todos os anos, grande parte das modalidades paralímpicas sobrevive com recursos limitados, apesar de seus resultados frequentemente superiores em termos de conquistas internacionais.

Essa disparidade revela uma distorção que precisa ser enfrentada pelas políticas públicas esportivas brasileiras e evitar essa desigualdade e discriminação entre os brasileiros que vestem a mesma camisa, honram a mesma bandeira e se emocionam com o nosso hino.

A Constituição Federal assegura que o esporte é um direito de todos. E a LBI – Lei Brasileira de Inclusão também garante esses direitos as pessoas com deficiência.

Esse princípio deve ser interpretado à luz da igualdade material, garantindo que pessoas com deficiência tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento esportivo, formação de atletas e participação em competições de alto rendimento.

Além disso, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) reafirma o dever do Estado de promover a participação das pessoas com deficiência nas atividades esportivas em igualdade de oportunidades, eliminando barreiras e incentivando políticas permanentes de inclusão.

Os investimentos no esporte paralímpico não devem ser vistos como despesas, mas como investimentos sociais.

Cada atleta apoiado representa inclusão, autonomia, geração de oportunidades e fortalecimento da imagem internacional do Brasil como um país comprometido com os direitos humanos e a diversidade.

A sociedade brasileira demonstra enorme orgulho quando acompanha as conquistas paralímpicas. Entretanto, esse reconhecimento não pode surgir apenas durante os Jogos Paralímpicos. É necessário transformar admiração em políticas públicas permanentes, incentivo privado, patrocínio, divulgação e valorização profissional.

Os paratletas brasileiros são exemplos de que a deficiência jamais limita o talento, a capacidade ou a determinação. O que muitas vezes limita seu desempenho é a ausência de condições equivalentes às oferecidas em outras modalidades esportivas.

A recente eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo não diminui a importância do futebol, mas evidencia que o sucesso esportivo depende de planejamento, investimento contínuo e valorização dos atletas – e acima de tudo, amor pelo que se faz.

Esse mesmo compromisso precisa alcançar o esporte paralímpico de forma muito mais consistente.

Defendemos – as vésperas dos 11 anos da promulgação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que chegou o momento de o Brasil construir uma política nacional de valorização do esporte inclusivo, ampliando investimentos, fortalecendo programas de formação, incentivando patrocinadores e promovendo maior cobertura da mídia para as modalidades paralímpicas.

Não basta celebrar medalhas.

É preciso criar condições para que elas continuem sendo conquistadas.

Os atletas paralímpicos brasileiros já demonstraram ao mundo sua competência.

Agora cabe ao Estado, à iniciativa privada e à sociedade reconhecerem que inclusão também se faz por meio do esporte.

O Brasil que emociona nas Paralimpíadas deve ser o mesmo Brasil que investe, respeita e acredita em seus atletas todos os dias do ano.

Quando isso acontecer, o legado será muito maior do que qualquer medalha: será a consolidação de uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde talento e dedicação sejam reconhecidos independentemente da existência de uma deficiência.

Preparem-se, em breve o Hino Nacional Brasileiro será admirado no mundo todo.

As próximas Paralimpíadas de Verão serão realizadas em Los Angeles, nos Estados Unidos, em agosto de 2028.

E lá, a nação brasileira sabe que terá campeões que se orgulham de vestir a camisa canarinha.

Vai Brasil. Não chora não!

  • Abrão Dib é jornalista e editor do Diário PcD

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