Enquanto o Brasil volta a discutir inclusão e neurodiversidade, especialista defende que informação, sozinha, não transforma a realidade das pessoas autistas.
Nos últimos anos, o autismo deixou de ser um tema restrito aos consultórios e passou a ocupar espaço nas escolas, nas empresas, nas redes sociais e na imprensa. O aumento dos diagnósticos e da circulação de informações ajudou a tornar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) mais conhecido pela sociedade. Mas conhecer não significa, necessariamente, compreender.
Para Cintia Chiarelli, fundadora do Instituto de mesmo nome, existe uma diferença importante entre conscientização e aceitação, e é justamente nessa distância que muitas pessoas autistas ainda enfrentam seus maiores desafios. “Hoje, muita gente sabe o que é o autismo. Mas isso não significa que saiba conviver com as diferenças, acolher necessidades específicas ou criar ambientes verdadeiramente inclusivos. A informação foi um primeiro passo. Agora precisamos transformar conhecimento em atitude”, revela a especialista.
Segundo Cintia, o preconceito nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes ele se manifesta em pequenas situações cotidianas: uma escola que não consegue acolher um aluno, uma empresa que não adapta seus processos seletivos, um profissional que interpreta comportamentos sem compreender o contexto ou uma família que se sente julgada em espaços públicos. Ela diz: “quando falamos sobre inclusão, estamos falando de pertencimento. Não basta permitir que uma pessoa esteja presente. Ela precisa sentir que aquele espaço também foi pensado para ela.”
Nos últimos anos, também cresceu o número de adultos que recebem diagnóstico de autismo, revelando que muitas pessoas passaram décadas convivendo com dificuldades sem compreender sua origem. Para Cintia, isso demonstra que a sociedade ainda está aprendendo a reconhecer a diversidade das manifestações do espectro; “o autismo não tem uma única aparência, uma única forma de comunicação ou uma única trajetória de vida. Cada pessoa carrega potencialidades, desafios e necessidades diferentes. Quanto mais abandonamos os estereótipos, mais nos aproximamos de uma inclusão real.”
Ela acredita que o próximo passo da sociedade não está apenas em ampliar o acesso ao diagnóstico, mas em construir ambientes onde pessoas autistas possam estudar, trabalhar, criar vínculos e participar plenamente da vida em comunidade. “Não podemos medir o avanço apenas pelo número de diagnósticos ou pelo volume de informação disponível. O verdadeiro avanço acontece quando uma pessoa autista consegue ocupar os mesmos espaços que qualquer outra pessoa com respeito, autonomia e oportunidades”, explica.
Para a fundadora do Instituto Cintia Chiarelli, a discussão sobre neurodiversidade precisa deixar de ser uma pauta restrita às famílias e aos especialistas: “quando uma sociedade aprende a acolher diferentes formas de perceber o mundo, todos se beneficiam. A inclusão não melhora apenas a vida das pessoas autistas; ela melhora a qualidade das relações humanas”, finaliza.
@intitutocintiachiarelli





