“Acessibilidade não é favor: é método, direito e prova concreta da capacidade de uma instituição aprender.”
O professor Júlio Francisco Blumetti Facó foi aprovado nesta quarta-feira, 6 de agosto de 2026, para promoção à classe de Professor Titular da Universidade Federal do ABC. A sessão pública começou às 8h e terminou por volta das 13h, após prova de erudição, defesa de memorial acadêmico e avaliação por banca formada por professores titulares. Segundo informação do próprio professor, ele passa a ser o primeiro docente PcD com cegueira a alcançar a titularidade na UFABC.
A pauta não se resume ao cargo. Júlio é professor associado da UFABC, engenheiro, mestre e doutor em Administração, com trajetória em inovação, gestão de operações, políticas públicas, ensino, pesquisa, extensão, gestão universitária, acessibilidade e inclusão. Sua prova de erudição teve como tema “Da capacidade de inovar à acessibilidade como competência organizacional”, defendendo que acessibilidade não pode ser favor, improviso ou apêndice administrativo, mas parte da capacidade de uma organização aprender.
A história pessoal atravessa a agenda acadêmica. Em 2001, Júlio perdeu o pai e a visão de um dos olhos em intervalo curto. Anos depois, aos 44 anos, a cegueira se completou. Ele evita narrar esse percurso como “superação”.
Em seus textos, a cegueira aparece como uma reorganização profunda de método, trabalho, leitura, circulação e presença institucional. Na defesa do memorial, ele afirmou que passou a depender de leitores de tela e recursos assistivos e que, a partir daí, compreendeu com outra profundidade que “formato também é conteúdo”: um arquivo mal estruturado, uma imagem sem descrição, um ambiente virtual desorganizado ou a ausência de mediação quando necessário podem impedir a participação antes mesmo que alguém tenha chance de aprender.
Na prova de erudição, Júlio argumentou que acessibilidade foi por muito tempo tratada como adaptação posterior: primeiro o produto, depois a adaptação; primeiro o prédio, depois a rampa; primeiro o sistema, depois a tentativa de torná-lo navegável. Para ele, essa lógica revela baixa capacidade de inovar, porque não antecipa a diversidade de usuários, corpos, sentidos e modos de participação.
A contribuição central de sua nova fase de pesquisa é aproximar acessibilidade da literatura sobre inovação organizacional. Em sua leitura, uma organização acessível precisa desenvolver capacidades: perceber barreiras, escutar usuários diversos, criar redundâncias, garantir equivalência operacional, institucionalizar rotinas, medir resultados e aprender continuamente. Essa perspectiva evita reduzir inclusão à boa vontade individual. A questão passa a ser institucional: que processos, dados, recursos, responsabilidades e formas de governança tornam possível participar com autonomia e dignidade?
O Memorial também registra as “marteladas” da vida sem transformá-las em espetáculo. Júlio relata que, após perder a visão de um olho, ouviu em uma entrevista de emprego: “Nós aceitamos gente como você aqui na empresa”. A frase encerrou a entrevista, mas abriu uma pergunta que atravessaria sua carreira: como investigar organizações que prometem acolher pessoas, mas falham diante de diferenças concretas?
Nos anos recentes, a escrita literária tornou-se uma válvula de escape e de reconstrução. Com a Família Facó, ao lado da esposa e das filhas, Júlio criou livros infantojuvenis e fábulas. Também deu vida a heterônimos como Kamou Gedu e Ho-kei Dube, usados para escrever sobre memória, democracia, dinheiro, autoengano, escolhas e liberdade de pensamento. Em páginas públicas, Ho-kei aparece associada ao blog “Dinheiro Que Me Veja”, com textos que desmontam mitos do mercado com ironia e crítica; Kamou surge como pensador livre, ligado à memória, identidade e futuro.
A aprovação para Professor Titular, nesse contexto, não é apresentada por Júlio como chegada heroica. É continuidade de trabalho. Sua agenda futura pretende tratar acessibilidade e inclusão como temas de pesquisa, ensino, extensão e gestão, sem abandonar a trajetória anterior em inovação e capacidade organizacional. A pergunta que ele deixa é simples e exigente: uma universidade que fala em conhecimento consegue aprender com quem antes era tratado como exceção?





