Acessibilidade deixou de ser adaptação: empresas precisam incorporar inclusão desde o projeto

Acessibilidade deixou de ser adaptação: empresas precisam incorporar inclusão desde o projeto

Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla chama atenção para barreiras que ainda limitam o acesso.

Uma escada sem alternativa de acesso, um banheiro que não permite a circulação de uma cadeira de rodas, sinalização insuficiente para pessoas com deficiência visual ou mesmo uma equipe que não sabe como receber um cliente com deficiência.

Barreiras aparentemente distintas têm algo em comum: podem determinar quem consegue ou não entrar, permanecer e participar de um espaço. Entre os dias 21 e 28 de agosto, quando o Brasil celebra a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, o tema ganha ainda mais atenção e relevância. 

Para as empresas, essa discussão deixou há muito tempo de pertencer apenas ao campo da responsabilidade social. Acessibilidade é um direito, uma obrigação legal e, cada vez mais, uma questão relacionada à qualidade dos ambientes, à experiência dos consumidores e à própria capacidade de uma organização atender públicos diversos.

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) estabelece que edificações abertas ao público, de uso público ou privadas de uso coletivo devem ser acessíveis e determina que projetos relacionados ao meio físico, informação, comunicação, serviços e instalações observem os princípios do desenho universal.

A Lei nº 10.098/2000 também determina que a construção, ampliação ou reforma de edifícios públicos ou privados destinados ao uso coletivo seja executada de forma a garantir acessibilidade às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

Na prática, entretanto, cumprir a legislação exige mais do que instalar uma rampa ou acrescentar uma barra de apoio. “Uma das questões que encontramos é justamente a ideia de que acessibilidade pode ser resolvida com intervenções isoladas. É preciso olhar para o percurso da pessoa como um todo: como ela chega, entra, circula, utiliza um banheiro, encontra uma informação e é atendida. Uma adaptação tecnicamente inadequada pode continuar sendo uma barreira”, explica Tatiana Moura, administradora e fundadora da CAVI Acessibilidade.

Entre as principais referências técnicas estão a ABNT NBR 9050:2020 e a NBR 16537:2024, que estabelecem parâmetros para acessibilidade em edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos. As normas contemplam questões como circulação, alcance, sinalização, sanitários, mobiliário, rampas, escadas e diferentes condições necessárias para utilização dos espaços com autonomia e segurança.

Um mercado que não pode ser ignorado

O Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais, equivalentes a 7,3% dessa população, segundo dados do Censo Demográfico 2022 divulgados pelo IBGE em 2025. O número ajuda a dimensionar uma questão que, para Tatiana Moura, ainda precisa ser melhor compreendida pelo ambiente empresarial.

“Quando uma empresa não oferece condições para que uma pessoa utilize seus espaços com autonomia, não estamos falando somente de uma inadequação física. Estamos falando de alguém que pode deixar de frequentar aquele hotel, restaurante, loja, clínica ou estabelecimento. E dificilmente essa pessoa está sozinha. A acessibilidade precisa ser entendida também como parte da experiência que uma marca oferece aos seus clientes”, afirma.

Essa percepção começa a ganhar espaço em setores como hotelaria, shoppings centers, turismo, bares e restaurantes. Em março deste ano, encontro promovido pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo e pela Abrasel discutiu a inclusão justamente como um ativo competitivo para o setor de hospitalidade, associando ambientes e serviços acessíveis à ampliação de público, reputação e fidelização de clientes.

O Ministério do Turismo também vem ampliando iniciativas nessa direção. Em maio de 2026, lançou um guia específico para atendimento a turistas neurodivergentes, produzido após uma pesquisa nacional com 761 participantes. O levantamento mostrou que as barreiras encontradas pelos consumidores não estão apenas na estrutura física: o atendimento e o preparo das equipes estão entre os fatores de maior impacto na experiência turística.

“Quando falamos em inclusão, não estamos falando de favor. Estamos falando de pessoas que estudam, trabalham, viajam, consomem, frequentam restaurantes, hotéis, lojas e espaços culturais. Derrubar barreiras e construir acesso é o grande objetivo da CAVI. Quanto mais empresas compreenderem isso como parte de sua própria cultura, mais próximos estaremos de uma sociedade em que as pessoas possam circular e participar com autonomia e respeito.”

IMAGEM/CRÉDITO: Divulgação CAVI

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Aviso de Direitos Autorais

Todos os direitos sobre os conteúdos publicados em todas as mídias sociais do Diário PcD, incluindo textos, imagens, gráficos, e qualquer outro material, estão reservados e são protegidos pelas leis de direitos autorais.
Todos os Direitos Reservados.
Nenhuma parte das publicações em todas as mídias sociais do Diário PcD devem ser reproduzidas, distribuídas, ou transmitidas de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação, ou outros métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por escrito do titular dos direitos autorais, de acordo com a legislação vigente.
Para solicitações de permissão para usos diversos do material aqui apresentado, entre em contato por meio do e-mail jornalismopcd@gmail.com ou telefone 11.99699 9955.
A infração dos direitos autorais é uma violação de Lei Federal 9.610, passível de sanções civis e criminais.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore