Comportamentos agressivos podem estar relacionados à sobrecarga sensorial, dificuldades de comunicação e sofrimento emocional. Antes de orientar ou punir, é preciso investigar o que está por trás dessas manifestações.
A adolescência traz mudanças físicas, emocionais e sociais que podem ser difíceis para qualquer jovem. Para adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse período pode envolver desafios adicionais, como maior pressão social, dificuldade para lidar com mudanças, sobrecarga sensorial e obstáculos para expressar sentimentos e necessidades.
Em algumas situações, esse conjunto de fatores pode se manifestar por meio de comportamentos agressivos. Isso, porém, não significa que a agressividade defina a personalidade ou determine como será a vida adulta.
Para a psicóloga clínica Sirlene Ferreira, especialista em autismo e desenvolvimento humano, interpretar um episódio de agressividade apenas como indisciplina ou falta de limites pode fazer com que a causa do comportamento passe despercebida. “Antes de olhar para a agressividade como um problema de comportamento, é preciso entender o que esse adolescente está tentando comunicar. Pode existir uma dificuldade para expressar uma frustração, uma sobrecarga diante dos estímulos, uma mudança de rotina ou até mesmo algum desconforto físico”, explica.
A dificuldade de comunicação pode estar diretamente relacionada a essas situações. Quando não consegue explicar que está ansioso, com dor, cansado ou incomodado, o adolescente pode expressar o desconforto por meio do comportamento. O mesmo pode ocorrer diante de barulho excessivo, luzes intensas, ambientes cheios ou mudanças inesperadas.
Por isso, observar o que aconteceu antes de uma crise é tão importante quanto lidar com o comportamento em si. O contexto pode revelar estímulos ou situações que contribuíram para a sobrecarga.
O comportamento não é uma sentença
Um dos riscos nessa fase é transformar um comportamento apresentado durante a adolescência em uma previsão sobre o futuro. Para Sirlene, essa associação precisa ser evitada. “Um adolescente que hoje apresenta episódios de agressividade não deve ser definido por esses episódios. O desenvolvimento continua e, com acompanhamento adequado, ele pode aprender novas formas de comunicação, reconhecer seus limites e desenvolver estratégias para lidar com situações que anteriormente provocavam crises”, afirma.
Isso não significa ignorar comportamentos que possam colocar o adolescente ou outras pessoas em risco. A intervenção precisa considerar a segurança, as características individuais do jovem e os fatores que desencadeiam as crises. A investigação deve começar também por possíveis causas físicas. Alterações do sono, dor, fome, desconfortos gastrointestinais e problemas odontológicos, por exemplo, podem provocar mudanças comportamentais. A partir das necessidades identificadas, o acompanhamento pode envolver psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, psiquiatria e outros profissionais.
O ambiente pode fazer diferença. Na escola, reconhecer sinais de sobrecarga, oferecer maior previsibilidade e estabelecer estratégias individualizadas pode ajudar a reduzir situações de estresse. Em casa, a família tem papel importante no acompanhamento da saúde mental, da construção da identidade e da preparação para a vida adulta.
Compreender o comportamento não significa aceitar situações de risco sem estabelecer limites. Significa reconhecer que uma reação tem uma razão e que essa razão precisa ser investigada. A agressividade pode sinalizar sofrimento, mas não precisa determinar o futuro de uma pessoa autista. Nesse processo, família, escola e profissionais têm o desafio de olhar além do comportamento apresentado e considerar comunicação, saúde, ambiente, emoções e individualidade. Como resume Sirlene, “mais do que perguntar como fazer o adolescente parar de ser agressivo, é preciso perguntar o que esse comportamento está tentando comunicar”.





