O número de brasileiros que convivem com a amputação cresce ano após ano, mas a oferta de espaços de prática esportiva ainda está longe de acompanhar essa realidade. Entre janeiro de 2012 e maio de 2023, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou mais de 282 mil cirurgias de amputação de membros inferiores, segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Hoje, a Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação estima que o país tenha cerca de 500 mil pessoas amputadas.
Os números ajudam a explicar por que iniciativas desse tipo vêm ganhando espaço. Se, de um lado, cresce o número de pessoas que convivem com amputações, de outro o esporte adaptado ainda avança em ritmo mais lento, limitado pela falta de investimento e de exposição. A participação de clubes tradicionais ajuda a diminuir essa distância ao oferecer estrutura e dar visibilidade a uma modalidade que permanece pouco conhecida do grande público.
A parceria entre o Juventus e a Associação Paulista de Amputados da Capital (APAC) coloca uma equipe de futebol de amputados dentro da estrutura de um clube tradicional. Formada por atletas amputados ou com má formação congênita, a Juventus APAC passa a representar oficialmente o clube e a utilizar sua estrutura para treinamentos e preparação física. Para uma modalidade que ainda convive com limitações de espaço, investimento e visibilidade, o vínculo pode representar mais do que uma nova camisa: uma estrutura mais estável para os atletas.
Embora o futebol de amputados tenha colocado o Brasil entre as principais referências internacionais da modalidade, a realidade cotidiana dos atletas ainda é marcada pela dificuldade de acesso a patrocínio, espaços para treinamento e apoio institucional. A entrada de clubes centenários nesse universo ajuda a reduzir parte dessas barreiras e amplia a visibilidade de uma modalidade que ainda permanece distante do grande público.
A aproximação entre Juventus e APAC surgiu por iniciativa de Fabio D’Angelo, o Fumaça, diretor de Futebol Associado do clube. Depois de conhecer a modalidade, ele recebeu dos próprios atletas o convite para que a equipe passasse a defender a camisa grená. “Assim que conheci essa modalidade, achei uma causa nobre e fiquei muito interessado em trazer o time para o clube”, afirma.
Os treinamentos acontecem duas vezes por semana, às quintas-feiras, no CDM Ibirapuera Fut Cross, e aos sábados, na sede do Juventus, na Mooca. Para o presidente do Clube Atlético Juventus, Tadeu Deradeli, a iniciativa faz parte de uma estratégia que amplia o papel da instituição para além das competições esportivas. “A nossa equipe simboliza o nosso desejo de constantemente ampliar nossa atuação como espaço de cultura, lazer e de atividades sociais”, diz.
O significado da parceria, porém, ultrapassa a rotina de treinos. Em um país onde milhares de pessoas passam por amputações todos os anos e a reabilitação envolve não apenas atendimento médico, mas também reconstrução da autonomia, autoestima e convivência social, o esporte tem se consolidado como um importante instrumento de reinserção. A possibilidade de integrar uma equipe, competir e representar um clube tradicional contribui tanto para o desenvolvimento esportivo quanto para ampliar a percepção de pertencimento desses atletas.







