Autismo Visível

Autismo Visível - OPINIÃO - * Por André Naves

OPINIÃO

  • * Por André Naves

Recentemente, a PUCPR publicou um relatório, baseado no Censo de 2022, que deveria nos convidar a uma profunda reflexão coletiva. Saber que aproximadamente 306 mil brasileiros com 60 anos ou mais se autodeclaram no espectro autista é uma forte evidência, com fortes fundamentos demográficos, de um entendimento que a ciência e os movimentos sociais vêm afirmando há anos: o autismo sempre existiu. O que é novo é a nossa capacidade — e dever — de percebê-lo.
 

Vivemos bombardeados por clichês perigosos e equivocados, que mentem que enfrentamos uma “epidemia” ou “explosão” de casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essa ideia, no entanto, não encontra amparo em evidências científicas sólidas.
 

Pelo contrário, ela é frequentemente alimentada por uma avalanche de desinformação que busca culpados fáceis e soluções mágicas, associando o autismo a vacinas, ao uso de paracetamol, a certos alimentos ou a estilos de vida.
 

Essas mentiras, além de infundadas, cumprem um propósito nefasto: desviam o foco do debate real e semeiam pânico, servindo como uma cortina de fumaça para o verdadeiro fundamento por trás dessa percepção de “aumento”: o preconceito.
 

A verdade é que só agora as pessoas autistas estão sendo percebidas. Antes, elas eram completamente invisibilizadas, diluídas em um mar de rótulos estigmatizantes. O homem idoso que hoje se reconhece autista era, em sua juventude, apenas o “excêntrico”. A mulher que passou a vida com dificuldades de interação social era a “antissocial”. A criança com uma necessidade visceral de rotina era a “teimosa” ou “problemática”.
 

Esses rótulos eram a expressão de uma violência simbólica, manifestada por uma sociedade que insiste em encaixar a riqueza da experiência humana em padrões rígidos e excludentes.
 

É importante frisar que no caso dos idosos, essa violência é dupla, somando o capacitismo ao etarismo — essa forma perversa de discriminação que vê o envelhecimento como sinônimo de decadência.
 

Os 306 mil idosos autistas pesquisados pela Universidade não são somente números ou estatísticas; são 306 mil biografias de resiliência que nos contam uma história de silenciamento.
 

São pessoas que atravessaram a vida sem compreender por que se sentiam deslocadas, por que a socialização era tão exaustiva ou por que o mundo, tantas vezes, parecia um lugar caótico e hostil. O diagnóstico tardio, para muitos, é a chance de, finalmente, nomear a própria experiência e se perdoar por não se encaixar em um molde que nunca lhes serviu.
 

Como, então, superamos décadas de preconceito e um presente inundado de mentiras? A resposta é dupla e exige nosso compromisso ativo: convivência e informação qualificada.
 

Primeiro, a convivência. A diversidade, por si só, é pedagógica. É no encontro, na partilha de espaços e na construção de laços que os estereótipos se desfazem. Ambientes de trabalho, escolas e comunidades que acolhem a pluralidade não apenas cumprem uma função social; elas se tornam mais inteligentes, criativas e humanas.
 

A inclusão real, estruturada, é o antídoto mais potente contra o veneno do preconceito, pois ela nos força a enxergar o outro em sua humanidade plena, para além de qualquer diagnóstico.
 

Segundo a busca por informação verdadeira. Em um ecossistema digital onde a desinformação floresce, temos a responsabilidade de sermos curadores ativos do conhecimento que consumimos e partilhamos. Isso significa desconfiar de soluções milagrosas, checar fontes, valorizar a ciência e, acima de tudo, ouvir as vozes das próprias pessoas autistas. Elas são as verdadeiras especialistas de suas vidas e as protagonistas indispensáveis desta conversa.
 

O chamado, portanto, vai muito além que a simples análise e indignação. Convido você, leitor, a levar essa reflexão para a prática.
 

Em sua vida privada, busque ativamente fontes de informação qualificadas e confiáveis, que substituam o medo pelo conhecimento. E, em sua vida pública, como cidadão, profissional e ser humano, ajude a construir as estruturas sociais inclusivas e justas que permitam uma convivência verdadeiramente plural.

Não há uma “explosão” de autismo. O que há é a esperança de que, como sociedade, estamos finalmente começando a abrir os olhos.
 

Que possamos construir um mundo onde ninguém precise esperar uma vida inteira para, simplesmente, ser quem é.

  • André Naves é Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política. (Instagram: @andrenaves.def).

Compartilhe esta notícia:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Aviso de Direitos Autorais

Todos os direitos sobre os conteúdos publicados em todas as mídias sociais do Diário PcD, incluindo textos, imagens, gráficos, e qualquer outro material, estão reservados e são protegidos pelas leis de direitos autorais.
Todos os Direitos Reservados.
Nenhuma parte das publicações em todas as mídias sociais do Diário PcD devem ser reproduzidas, distribuídas, ou transmitidas de qualquer forma ou por qualquer meio, incluindo fotocópia, gravação, ou outros métodos eletrônicos ou mecânicos, sem a prévia autorização por escrito do titular dos direitos autorais, de acordo com a legislação vigente.
Para solicitações de permissão para usos diversos do material aqui apresentado, entre em contato por meio do e-mail jornalismopcd@gmail.com ou telefone 11.99699 9955.
A infração dos direitos autorais é uma violação de Lei Federal 9.610, passível de sanções civis e criminais.

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore