Data reforça importância de diagnóstico precoce, tratamento adequado e redução de estigmas
Os transtornos mentais figuram entre as principais causas de incapacidade no Brasil1,2 e impactam na qualidade de vida, nas relações sociais, na produtividade e na saúde física3. Diante desse cenário, o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, reforça importância de cuidar da saúde mental da mesma forma que ocorre com os problemas físicos4.
A saúde mental não corresponde apenas à ausência de transtornos psiquiátricos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um estado de bem-estar que permite às pessoas lidar com os desafios cotidianos, desenvolver suas capacidades, manter relacionamentos, trabalhar e participar da vida em sociedade. Esse equilíbrio, entretanto, pode ser influenciado por diferentes fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais³.
“Cuidar da saúde mental não significa buscar um estado permanente de felicidade ou eliminar emoções desagradáveis. Tristeza, medo, preocupação e frustração fazem parte da vida. O que merece atenção é quando essas manifestações se tornam persistentes, desproporcionais ou passam a comprometer o funcionamento da pessoa em diferentes aspectos da vida”, explica o psiquiatra Rogério Onofre, médico consultor da Libbs e supervisor do Ambulatório Longitudinal da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Entre os sinais que podem indicar a necessidade de avaliação profissional, estão alterações persistentes do humor, perda de interesse por atividades antes prazerosas, ansiedade significativa, dificuldade de concentração, alterações importantes do sono ou do apetite, isolamento social, irritabilidade frequente e prejuízo no desempenho no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos5.
Dependendo do transtorno e da gravidade dos sintomas, o tratamento pode incluir psicoterapia, medicamentos, intervenções psicossociais e mudanças no estilo de vida, sempre de forma individualizada6. “Os transtornos mentais são condições médicas que possuem critérios diagnósticos bem estabelecidos e tratamentos eficazes para grande parte dos pacientes. Quanto mais cedo a pessoa procura ajuda, maiores são as possibilidades de controlar os sintomas, reduzir o sofrimento e preservar a qualidade de vida”, afirma Onofre.
Um dos maiores obstáculos ao cuidado, no entanto, ainda é o estigma. O receio de sofrer preconceito ou de ser julgado leva muitas pessoas a adiar a procura por atendimento especializado, o que pode agravar os sintomas e ampliar o impacto desses transtornos sobre a vida cotidiana³. Romper essa barreira é hoje um dos principais desafios da saúde mental, assim como o acesso ao tratamento em si7.
Além da assistência médica, estratégias de promoção da saúde mental também fazem parte da prevenção. Sono adequado, prática regular de atividade física, manutenção de vínculos sociais, redução do consumo de álcool e outras substâncias, organização da rotina e acesso ao lazer estão entre os fatores associados ao bem-estar psicológico, embora não substituam o tratamento quando um transtorno mental está presente6.
“A saúde mental deve ser compreendida como parte integrante da saúde geral. Assim como monitoramos pressão arterial ou colesterol, também é importante observar as mudanças persistentes no humor, no comportamento e na capacidade de lidar com as atividades do dia a dia. Procurar ajuda quando necessário faz parte do cuidado com a saúde”, conclui o psiquiatra.
Referências
1. Fan Y, Fan A, Yang Z, et al. Global burden of mental disorders in 204 countries and territories, 1990–2021: results from the global burden of disease study 2021. BMC Psychiatry. 2025;25:486.
2. GBD 2019 Mental Disorders Collaborators. Global, regional, and national burden of 12 mental disorders in 204 countries and territories, 1990-2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet Psychiatry. 2022;9(2):137-150.
3. World Health Organization. World Mental Health Report: Transforming mental health for all. Geneva: WHO; 2022.
4. World Health Organization. World Mental Health Day. Geneva: WHO [Acesso em 10 ago 2026]. Disponível em: Link
5. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. 5ª edição. Porto Alegre: Artmed; 2014.
6. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Depression in adults: treatment and management. NICE Guideline NG222. London: NICE; 2022.
7. Clement S, Schauman O, Graham T, Maggioni F, Evans-Lacko S, Bezborodovs N, et al. What is the impact of mental health-related stigma on help-seeking? A systematic review of quantitative and qualitative studies. Psychol Med. 2015;45(1):11-27.
Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do autor.






