Lucelmo Lacerda questiona projeto lançado em São Paulo para separar salas de aulas de estudantes por habilidades. Ele apresenta números mundiais que justificam decisão de Tarcísio de Freitas
O Governador Tarcísio de Freitas é questionado sobre o Projeto VOAR, que foi lançado em “caráter piloto e por adesão voluntária, com o objetivo de promover a redução das desigualdades educacionais através da recomposição e aceleração das aprendizagens de alunos que apresentam altas e médias defasagens, a ser implementado no âmbito da Rede Estadual de Ensino de São Paulo”.
A postura adotada em São Paulo é acusada de “adotar algo que não funciona, ao invés de algo que funciona. Queria entender qual é o critério”, questiona Lucelmo Lacerda, especialista brasileiro em TEA, Educação Inclusiva e defensor de práticas baseadas em evidências científicas no tratamento e na escolarização de pessoas autistas.
De acordo com o Governo Estadual “o piloto passa a ser implementado em 147 escolas da rede estadual com foco em enfrentar defasagens em leitura, escrita e matemática, especialmente entre estudantes que chegam ao 6º ano sem a alfabetização consolidada. Esta é mais uma das várias iniciativas para impedir que alunos acumulem muitos anos de defasagem, um problema que infelizmente ainda é muito recorrente. Neste ano estamos expandindo o Professor Tutor Anos Finais, que teve quase dois anos de pilotos bem-sucedidos. A ideia é testar o Voar com o mesmo rigor”, afirma o subsecretário pedagógico da Educação, Daniel Barros.
Pelas redes sociais, Claudia Hakim – Advogada especialista em Direito Educacional, escreveu que “o projeto se baseia na ideia de que uma única forma de ensinar não alcança todos os alunos da mesma maneira. Por isso, permite: diferentes ritmos de aprendizagem; propostas pedagógicas com níveis variados de aprofundamento; maior adequação entre ensino, tempo e desenvolvimento do estudante; manutenção de todos os alunos na escola regular, sem segregação institucional. Essas salas não representam hierarquia entre alunos, nem definem valor, inteligência ou potencial futuro. Trata-se de organização pedagógica, não de rótulo. Educação responsável respeita a diversidade cognitiva, sem comparações ou estigmas”.
Para Lucelmo Lacerda, o livro do John Haidt, que é Aprendizagem Invisível – autor australiano, fez meta-análise de mais de 2 mil meta-análises de educação. Tem vários problemas neste trabalho dele, em algumas áreas, em outras áreas, para outras áreas ele é excelente, isso é um debate para a gente fazer em um outro contexto, mas nessas duas áreas que eu vou falar aqui, ele é excelente. A separação de salas por nível de habilidade tem um impacto de 0,09. O que é mais ou menos entendido é que uma coisa só vale a pena ser feita normalmente quando passa de 0,40, ela é 0,09. Eu vou dar um exemplo: pega o RTI, o modelo de resposta e intervenção, ele é 0,73, ele é o dobro do mínimo que você diz que funciona. É o modelo de todos os países desenvolvidos. Como é que você escolhe uma coisa que não funciona em vez de uma coisa que funciona? Por quê? Eu queria entender qual é o critério, porque veja, pode ser que a separação de salas agora ela funcione em um outro contexto, por quê? Não é porque uma coisa não funcionou em uma série de vezes que ela não vai funcionar nunca, você pode mudar parâmetros, tudo isso. Eu entendo. Mas se é para eu escolher, por que eu escolho uma coisa que até agora nunca funcionou ao invés de uma coisa que todo o planeta sabe que funciona? Então eu acho esse critério muito opaco, eu não consigo entender e não foi divulgado qual foi esse critério”.
O Governo Estadual também divulgou que tem uma cooperação com a Universidade de Harvard, que é coordenada por um Comitê de Gestão Conjunta, com apoio da organização Parceiros pela Educação. A equipe do ELLA atua no acompanhamento do Projeto Voar e no fortalecimento da política de professores tutores do Ensino Fundamental, que será implantada em todas as escolas da rede, do 1º ao 9º ano, com foco na formação continuada e na aceleração da aprendizagem em alfabetização e matemática.
Lacerda também questiona. “Estão dizendo que tem acompanhamento de uma equipe de Harvard para fazer avaliação técnica. Que tipo de avaliação técnica? Tem um desenho experimental? Para saber se isso funciona ou não, não basta eu medir se eles estão aprendendo, porque eles podem estar aprendendo por vários outros motivos, porque os professores que foram selecionados ali são melhores, porque, sei lá, por mil motivos, são variáveis confundidoras. Eu preciso de um delineamento experimental. Tem um projeto de pesquisa escrito? Ninguém sabe e ninguém viu! Isso não foi publicado”.





