Pessoas com deficiência podem gastar 40% a mais para viver e ganhar 30% menos, aponta contraste entre estudos da OMS e IBGE

Pessoas com deficiência podem gastar 40% a mais para viver e ganhar 30% menos, aponta contraste entre estudos da OMS e IBGE

Relatório da Organização Mundial da Saúde destaca custos adicionais associados à deficiência, enquanto dados do IBGE revelam desigualdade de renda no Brasil. A combinação evidencia um desafio econômico: enfrentar despesas extras com rendimentos menores e barreiras que dificultam a autonomia.

Imagine precisar de mais recursos para cuidar da saúde, se locomover, adaptar a própria casa ou contratar apoio para realizar atividades cotidianas — e, ao mesmo tempo, receber menos pelo seu trabalho do que uma pessoa sem deficiência.

Para milhões de pessoas com deficiência, essa combinação ajuda a explicar por que a desigualdade econômica não se resume ao valor que aparece no contracheque.

Estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde apontam que os custos adicionais associados à deficiência podem representar mais de 40% da renda média para pessoas com deficiência significativa. No Brasil, dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o rendimento médio do trabalho das pessoas com deficiência é aproximadamente 29% inferior ao das pessoas sem deficiência.

Os indicadores vêm de estudos diferentes e não devem ser interpretados como se medissem exatamente a mesma coisa. Mas, analisados em conjunto, ajudam a dimensionar o desafio financeiro enfrentado por parte dessa população: despesas adicionais para viver em condições equivalentes e menos renda disponível para custeá-las.

OMS: os custos adicionais podem ultrapassar 40% da renda média

O Relatório Mundial sobre a Equidade em Saúde para Pessoas com Deficiência, publicado pela OMS, aborda os gastos adicionais que pessoas com deficiência e suas famílias podem enfrentar para alcançar um padrão de vida equivalente ao de pessoas sem deficiência.

Entre as despesas mencionadas estão serviços de saúde, dispositivos de tecnologia assistiva, transporte mais caro, adaptações habitacionais, dietas específicas, serviços de lavanderia e assistência pessoal.

O documento aponta que os custos adicionais associados à deficiência podem representar cerca de um terço da renda média para pessoas com deficiência moderada e superar 40% da renda média para aquelas com deficiência significativa.

Isso significa que o impacto financeiro não está restrito à aquisição de medicamentos ou ao pagamento de tratamentos. Ele também pode envolver despesas necessárias para trabalhar, estudar, circular pela cidade, morar com segurança e participar da vida em sociedade.

Uma pessoa que precisa contratar transporte acessível, adquirir equipamentos específicos ou pagar por assistência pessoal pode ter despesas que não fazem parte do orçamento de alguém que não enfrenta as mesmas necessidades.

É importante destacar que os percentuais apresentados pela OMS são estimativas relacionadas aos custos adicionais em determinados níveis de deficiência. Não significam que todas as pessoas com deficiência gastem obrigatoriamente 40% a mais, nem que esse percentual se aplique de maneira uniforme a todos os países e indivíduos.

Ainda assim, o estudo mostra que os gastos adicionais podem comprometer uma parcela expressiva dos recursos disponíveis para viver.

IBGE: pessoas com deficiência recebem cerca de 30% menos

Se os custos podem ser maiores, a renda também representa um obstáculo. A segunda edição do estudo Pessoas com deficiência e as desigualdades sociais no Brasil, divulgada pelo IBGE em setembro de 2026, reúne informações sobre trabalho, rendimento, educação, transporte, moradia e outras dimensões das condições de vida dessa população. A publicação utiliza, entre outras fontes, dados do Censo Demográfico de 2022.

Na dimensão do trabalho, os dados divulgados pelo instituto indicam que as pessoas com deficiência recebem, em média, aproximadamente 29% menos do que as pessoas sem deficiência.

A diferença é expressiva. Considerando os valores médios apresentados no levantamento, o rendimento mensal era de R$ 2.053 para pessoas com deficiência, diante de R$ 2.890 para pessoas sem deficiência. Isso representa uma diferença de R$ 837 por mês. Em um ano, mantida essa diferença mensal, a distância chega a R$ 10.044.

A desigualdade de rendimento se soma às dificuldades de acesso ao mercado de trabalho e à menor participação das pessoas com deficiência em oportunidades profissionais. O próprio estudo do IBGE analisa as desvantagens acumuladas que atingem esse grupo em diferentes áreas da vida social.

O resultado é um cenário no qual a pessoa pode encontrar obstáculos para conseguir emprego, enfrentar barreiras para permanecer no mercado de trabalho e, mesmo quando está ocupada, receber menos.

Quando a conta não fecha

Os dois estudos ajudam a compreender uma contradição econômica. De um lado, a OMS aponta que, para pessoas com deficiência significativa, os custos adicionais associados à deficiência podem superar 40% da renda média. De outro, o IBGE mostra que, no Brasil, o rendimento médio do trabalho das pessoas com deficiência é cerca de 29% menor.

Esses percentuais não podem ser simplesmente somados ou subtraídos: referem-se a indicadores, populações e metodologias diferentes. O dado da OMS trata de custos adicionais associados à deficiência; o do IBGE compara rendimentos médios do trabalho no Brasil.

A comparação, entretanto, evidencia uma questão importante: como garantir autonomia e qualidade de vida quando as necessidades podem exigir mais recursos, mas as oportunidades de obter renda são desiguais?

Para algumas pessoas, os custos adicionais podem comprometer a capacidade de poupar, investir em qualificação profissional, adquirir bens, morar de forma independente ou participar de atividades de lazer.

A situação também pode afetar as famílias, que muitas vezes assumem despesas com cuidados, deslocamentos e equipamentos, além de reorganizar sua rotina para oferecer apoio.

Não existe uma única realidade econômica para todas as pessoas com deficiência. As necessidades variam conforme o tipo e o grau de impedimento, as condições de saúde, a renda familiar, o acesso a serviços públicos e a disponibilidade de recursos de acessibilidade. Ainda assim, os indicadores mostram por que a análise da desigualdade precisa considerar tanto a renda quanto os gastos necessários para viver.

Acessibilidade também tem impacto econômico

Os custos associados à deficiência não decorrem apenas de necessidades individuais. A falta de acessibilidade pode aumentar despesas e dificultar o acesso a serviços que deveriam estar disponíveis a todos.

Quando o transporte público não oferece condições adequadas, por exemplo, a pessoa pode precisar recorrer a alternativas mais caras. Quando faltam serviços de apoio, a família pode ter de contratar assistência particular ou reduzir a jornada de trabalho de um de seus integrantes.

Barreiras arquitetônicas, falta de tecnologia assistiva e serviços públicos inacessíveis também podem restringir oportunidades de educação, emprego e participação social.

A OMS aborda a deficiência a partir da interação entre as condições individuais e o ambiente, reconhecendo que fatores sociais e econômicos podem ampliar as desigualdades enfrentadas por essa população.

Por isso, políticas de acessibilidade não devem ser vistas apenas como despesas. Elas também podem reduzir barreiras, ampliar a autonomia e facilitar a participação das pessoas com deficiência na educação, no trabalho e na vida comunitária.

O desafio de transformar direitos em condições reais de vida

A Lei Brasileira de Inclusão estabelece princípios e garantias para assegurar igualdade de oportunidades e participação social às pessoas com deficiência. Mas a existência de direitos na legislação não elimina automaticamente as desigualdades de renda, as despesas adicionais ou as barreiras encontradas no cotidiano.

Os dados da OMS e do IBGE reforçam a necessidade de políticas públicas articuladas, que considerem emprego, renda, saúde, transporte acessível, tecnologia assistiva, moradia e serviços de apoio.

Também apontam para a importância de ampliar as oportunidades de trabalho, combater a discriminação e promover ambientes profissionais acessíveis, com condições para que pessoas com deficiência ingressem, permaneçam e progridam em suas carreiras.

A discussão não deve partir da ideia de que toda pessoa com deficiência precisa das mesmas adaptações ou enfrenta os mesmos custos. O objetivo é reconhecer que necessidades específicas podem gerar despesas adicionais e que as barreiras sociais podem agravar a desigualdade econômica.

Quando o custo de viver pode ser maior e o rendimento do trabalho é menor, a inclusão precisa ser discutida também pelo seu impacto no orçamento, na autonomia e na possibilidade de construir uma vida independente.

A pergunta que fica é direta: como exigir igualdade de oportunidades sem enfrentar, ao mesmo tempo, as barreiras que aumentam as despesas e reduzem as possibilidades de renda das pessoas com deficiência?

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