Quando você fala comigo, olhe para mim

Quando você fala comigo, olhe para mim - OPINIÃO - * Por Ana Prado

OPINIÃO

  • * Por Ana Prado

Há situações em que o capacitismo se manifesta sem ser anunciado. Ele aparece em práticas cotidianas, em gestos aparentemente pequenos, mas reveladores do lugar que uma pessoa ocupa na relação com outra.

Uma pessoa enxergante se aproxima de uma pessoa cega e inicia uma conversa diretamente com ela. A interlocutora responde, e a conversa prossegue. Em determinado momento, enquanto continua falando com ela, a pessoa enxergante desloca o olhar para outra pessoa enxergante que está ao lado. A interlocutora percebe o deslocamento e interrompe aquela dinâmica:

Você está falando comigo. Então olha para mim.

A partir daí, a situação poderia simplesmente se encerrar. Bastaria que a pessoa que iniciou a conversa retomasse a interlocução e olhasse para quem está falando com ela. Muitas vezes, porém, a segunda pessoa enxergante entra na situação para defendê-la: justifica o comportamento, explica a atitude, ameniza o gesto.

E por que essa defesa aparece?

Por que alguém que não foi chamado para a conversa sente necessidade de proteger quem desviou o olhar justamente de quem deveria estar sendo reconhecida como interlocutora?

Essa defesa revela uma cumplicidade que ultrapassa aquele instante. A segunda pessoa acolhe o deslocamento e oferece uma justificativa para que ele pareça natural, aceitável, sem importância.

A situação deixa de ser apenas uma questão de comportamento individual. O olhar passa a organizar a própria relação.

Em Goffman, as interações face a face envolvem posições, expectativas e formas de reconhecimento entre aqueles que participam de uma situação. A maneira como cada pessoa se coloca diante da outra também comunica quem é reconhecido como interlocutor e quem ocupa o lugar de referência. Quando alguém fala com uma pessoa cega e procura com os olhos outra pessoa enxergante, desloca para esse outro corpo uma referência que deveria permanecer na relação original.

Quando essa segunda pessoa devolve o olhar ou assume a defesa de quem o lançou, o deslocamento ganha sustentação.

A interlocutora percebe a alteração na relação e intervém.

Isso é capacitismo.

Ele também aparece quando alguém é incluído fisicamente em uma conversa, mas tem sua posição de interlocutora deslocada no decorrer dela.

Uma pessoa cega não precisa de uma pessoa enxergante entre ela e quem fala com ela. Não precisa de um olhar emprestado. Não precisa que outra pessoa enxergue para que sua fala seja reconhecida.

A segunda pessoa enxergante poderia simplesmente não participar. Poderia não devolver o olhar. Poderia não assumir a defesa de quem desviou. Poderia deixar a conversa entre quem a iniciou e quem foi diretamente interpelada.

Quando decide entrar, ela deixa de ser espectadora e passa a sustentar aquela dinâmica.

Um olhar procura.

Outro olhar responde.

Uma pessoa justifica.

Outra é colocada na posição de precisar ser defendida.

A pessoa que deveria ser a interlocutora passa a ter de reivindicar novamente um lugar que já era seu.

Não é a cegueira que interrompe a interlocução. É o olhar de quem procura outra pessoa para sustentar uma conversa que não é com ela.

Quando você fala comigo, olhe para mim.

E você, que recebe esse olhar, não o devolva.

Não assuma uma conversa que não é sua.

Não transforme a defesa do outro em justificativa para deslocar quem estava na conversa desde o início.

Deixe a conversa onde ela começou.

  • Ana Prado é Mulher cega, assessora da Secretaria de saúde da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB). Doutoranda do programa de pós-graduação em ciências, tecnologias e inclusão da Universidade Federal Fluminense (PGCTIn-UFF).
  • É ainda autora do livro “ENTRE LINHAS E IMAGENS: tornando a literatura infantil acessível às crianças com deficiência visual”.

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