OPINIÃO – O tempo adicional gasto no cotidiano das pessoas com deficiência torna a jornada ainda mais longa e expõe os limites da inclusão no modelo atual de trabalho
- * Por Ronaldo Denardo
Sempre me perguntam se as pessoas com deficiência vivem menos. E a resposta é SIM e NÃO ao mesmo tempo.
NÃO, porque a maioria das deficiências não compromete fisiologicamente a saúde da pessoa, deficiência não é doença. Então, assim como qualquer outra pessoa, se a pessoa com deficiência cuidar da sua própria saúde, se alimentando bem, fazendo atividades e exercícios físicos regularmente, fazendo exames e frequentando o médico regularmente, haverá longevidade. Então concluímos que uma pessoa com deficiência pode viver 70, 80, 90 anos como qualquer outra pessoa a depender do seu estilo de vida e cuidados que tem com sua saúde.
E SIM, porque as pessoas com deficiência gastam mais tempo com as atividades ocupacionais básicas da vida diária, como por exemplo com as tarefas de higiene, alimentação, transporte, deslocamento, etc etc.
Diferença de tempo nas atividades cotidianas para pessoas com deficiência
Na prática, em relação à quanto tempo levamos para cada atividade, é mais ou menos assim:
MICÇÃO
PSD = 2 minutos / PCD = 10 minutos (sondagem e seus procedimentos)
EVACUAÇÃO
PSD = 5 a 10 minutos / PCD = 20 a 30 minutos (estimulações, manobras, etc)
BANHO
PSD = 15 minutos / PCD = 30 a 40 minutos
ATO DE VESTIR E CALÇAR
PSD = 15 minutos / PCD = 30 minutos
EMBARCAR NO CARRO
PSD = 1 minuto / PCD = 10 minutos
PEGAR UM ÔNIBUS
PSD = 5 a 10 minutos / PCD = 15 a 30 minutos
PERCORRER 100mts CAMINHANDO
PSD = 2 minutos / PCD = 10 minutos
ACESSAR UM ELEVADOR DE GRANDE FLUXO
PSD = 7 minutos / PCD = 15 a 20 minutos
ACESSAR (ENTRAR) UM PRÉDIO COMERCIAL
PSD = 1 minuto / PCD = 10 minutos
PASSAR AS COMPRAS NO SUPERMERCADO
PSD = 20 minutos / PCD (fila preferencial) = 30 minutos
ENCONTRAR UMA VAGA DE ESTACIONAMENTO
PSD = 5 minutos / PCD (vaga preferencial) = 20 minutos
IR AO BANCO
PSD = 15 minutos / PCD (senha preferencial) = 15 minutos
CONSULTA MÉDICA
PSD = 30 minutos / PCD (senha preferencial) = 30 minutos
Agora ficamos com resultado:
Diferença de tempo por atividade
Micção: +8 min
Evacuação: +15 min
Banho: +20 min
Vestir/calçar: +15 min
Embarcar no carro: +9 min
Pegar ônibus: +15 min
Andar 100m: +8 min
Elevador: +10 min
Entrar em prédio: +9 min
Supermercado: +10 min
Estacionar: +15 min
Banco: 0
Consulta médica: 0
Total aproximado por dia = 134 minutos a mais por dia, isso dá 2 horas e 14 minutos diários a mais.
Impacto ao longo do tempo
Em 1 mês:
São 67 horas a mais (mais de 2 dias inteiros)
Em 1 ano:
São 815 horas a mais (34 dias inteiros)
Em 10 anos: São 340 dias (praticamente 1 ano da vida)
Em 50 anos a pessoa com deficiência perde praticamente 5 anos de vida para realizar as tarefas ocupacionais, que são aquelas tarefas básicas e necessárias do dia a dia para a vida, tarefas que não são produtivas, que não são tempo de descanso, para desenvolvimento pessoal ou lazer. Estamos falando de tempo gasto apenas para existir com dignidade.
Mas o que eu quero dizer com isso?
Quero dizer que a escala 6×1 (seis dias de trabalho para apenas um de descanso) já é, por si só, uma lógica extremamente desgastante para qualquer pessoa. Ela reduz o tempo de recuperação física, limita o convívio familiar e praticamente anula a possibilidade de organização da vida pessoal. Mas para as pessoas com deficiência, essa escala não é apenas cansativa. Ela é desproporcional. Ela é injusta.
Enquanto uma pessoa sem deficiência encerra seu expediente e tem, de fato, o restante do dia disponível para si, já pessoas com deficiência ainda precisa “trabalhar” por mais duas horas, só que em tarefas invisíveis, não remuneradas e inevitáveis. Ou seja, na prática, a jornada de pessoas com deficiência não termina quando o expediente acaba. Ela continua. Continua no tempo maior para o banho, na locomoção mais lenta, na adaptação para se vestir, no deslocamento até em casa, nos cuidados com o próprio corpo. E tudo isso se repete no dia seguinte. E no outro. E no outro.
Quando colocamos isso dentro de uma escala 6×1, o que acontece para pessoas com deficiência é simples e cruel. O único dia livre da semana, que já é insuficiente para qualquer trabalhador, passa a ser utilizado não para viver, mas para recuperar o atraso da própria vida. Para resolver o que não coube nos outros seis dias. Para descansar de um cansaço que nunca foi apenas do trabalho.
E isso gera um efeito silencioso, mas profundo:
Aumento do desgaste físico e mental
Maior risco de adoecimento
Redução da qualidade de vida
Exclusão indireta do mercado de trabalho
Porque, na prática, a estrutura não comporta essa pessoa. Defender o fim da escala 6×1 não é apenas uma pauta trabalhista. É uma pauta de inclusão. É reconhecer que igualdade não é tratar todos da mesma forma, mas considerar as diferenças reais de ponto de partida e de esforço necessário para viver o cotidiano.
Uma jornada mais equilibrada, como a 5×2 ou modelos mais flexíveis, não é privilégio. É ajuste de realidade. É permitir que a pessoa com deficiência tenha, de fato, tempo para descansar, cuidar da própria saúde, para conviver com a família e, principalmente, para existir além da sobrevivência Porque hoje, para muitos, o que existe não é vida. É uma corrida constante contra o tempo. E uma corrida em que alguns largam quilômetros atrás.
Se queremos falar de produtividade, precisamos falar de condições reais. Se queremos falar de inclusão, precisamos falar de estrutura. Se queremos falar de dignidade, precisamos falar de tempo. O fim da escala 6×1 é, acima de tudo, sobre isso, dar às pessoas com deficiência algo que deveria ser básico para todos, tempo de viver, e não apenas de sobreviver.

- * Ronaldo Denardo é cadeirante e tetraplégico desde um acidente automobilístico ocorrido em 1997. A partir desse contexto, construiu uma trajetória profissional consolidada como palestrante há mais de 20 anos, com centenas de apresentações realizadas em empresas de diferentes portes em todo o Brasil. Jornalista formado em Comunicação Social e também em gestão pública, atua como autor, cineasta, roteirista, locutor e produtor audiovisual. Natural de Santo André, é casado com Lilian, tem 50 anos e também se dedica à produção de conteúdo digital, além de atuar como piloto de drone.




