Especialistas comentam como habilidades simples são construídas ao longo do tempo e impactam diretamente a qualidade de vida de crianças no TEA
O desenvolvimento de crianças no Transtorno do Espectro Autista (TEA) acontece de forma progressiva, marcado por pequenos avanços que, na prática, têm grande impacto na autonomia e na qualidade de vida. Habilidades como pedir algo, manter contato visual, seguir uma rotina ou interagir com outras pessoas são exemplos de conquistas que, embora simples à primeira vista, representam etapas importantes na construção do desenvolvimento a partir de uma abordagem multidisciplinar.
Diferentemente de um processo linear, a evolução no autismo ocorre por meio do acúmulo dessas habilidades ao longo do tempo. “Pequenas conquistas como a intenção comunicativa, o contato visual ao ser chamado, apontar, compreender e imitar são pré-requisitos fundamentais para a estruturação da linguagem. São habilidades básicas, mas de grande importância”, explica a fonoaudióloga Michela Mattos, do Grupo Gaiadi – Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil, em Ribeirão Preto (SP).
O desenvolvimento dessas competências está diretamente ligado à autonomia da criança, com impacto imediato na interação social. “Comportamento e comunicação andam de mãos dadas. Quando a criança não consegue se expressar, podem surgir frustração e irritabilidade. Por outro lado, quando as habilidades comunicativas aumentam, os comportamentos adequados também aumentam, e a criança se torna mais confiante”, afirma a especialista.
Construção de habilidades
No dia a dia, essas conquistas também se refletem em habilidades práticas relacionadas à independência. “Conquistas simples como colocar os sapatos, pedir água sem ajuda ou aceitar trocar de roupa já mostram evolução. Também é importante considerar o aspecto sensorial, como tolerar uma nova textura de roupa ou experimentar um alimento diferente”, destaca a terapeuta ocupacional do Grupo Gaiadi, Neila Dellai.
A construção dessas habilidades não acontece de forma espontânea, mas a partir de um trabalho estruturado e contínuo. A intervenção especializada atua justamente no desenvolvimento progressivo dessas competências, respeitando o ritmo da criança. “A terapia ocupacional trabalha em etapas, começando por tarefas simples e aumentando a complexidade conforme a criança evolui, sempre com adaptações para que ela conquiste autonomia de forma segura”, explica Neila.
Esse processo não se limita ao ambiente terapêutico. A participação da família é considerada essencial para a consolidação dos avanços. “A família é a peça fundamental. É no ambiente familiar que a criança aprende a se comunicar, a se fazer entender e a ganhar segurança para se expressar em outros espaços. O trabalho não é só com a criança, é com a criança e sua família”, afirma Michela.
Neste processo, aspectos como organização da rotina e participação em atividades cotidianas também influenciam diretamente a qualidade de vida. “Seguir uma rotina traz previsibilidade e segurança, lidar com mudanças reduz a ansiedade e participar de atividades fortalece vínculos sociais. Tudo isso contribui para que a criança participe com mais conforto dos diferentes ambientes”, conclui Neila.





