A inclusão é bem-vinda. Desde que não incomode.

A inclusão é bem-vinda. Desde que não incomode. OPINIÃO - * Por Igor Lima

OPINIÃO

  • * Por Igor Lima

A inclusão que existe no discurso, mas desaparece na prática

Vivemos um momento em que a inclusão ocupa um espaço cada vez maior nos discursos. Empresas divulgam campanhas sobre diversidade, instituições promovem eventos, órgãos públicos anunciam iniciativas voltadas à acessibilidade e as redes sociais são tomadas por mensagens de conscientização. À primeira vista, a impressão é de que estamos construindo uma sociedade mais justa e acolhedora.

Mas basta observar com mais atenção para perceber que existe uma distância considerável entre o que se anuncia e o que, de fato, se pratica.

A inclusão, quando vem embalada em um discurso institucional, é recebida com aplausos. O problema começa quando essa mesma inclusão exige alguma mudança concreta: um horário adaptado, uma reunião remarcada, um investimento em acessibilidade, uma vaga de trabalho preenchida por alguém que exigirá ajustes razoáveis. Nesse momento, o entusiasmo costuma dar lugar à hesitação.

O discurso como vitrine

Não é incomum que a inclusão seja tratada como elemento de imagem institucional. Divulgar uma política de diversidade tornou-se, para muitas organizações, uma forma de comunicação com o mercado e com a sociedade, mais do que um compromisso estrutural.

Isso não significa que todo discurso seja necessariamente vazio. Existem iniciativas sérias, construídas com planejamento e continuidade. O problema surge quando o discurso se torna um fim em si mesmo, dissociado de qualquer transformação prática na forma como a instituição se organiza, contrata, promove e acolhe pessoas com deficiência.

Romeu Sassaki já alertava que a inclusão verdadeira pressupõe a transformação da sociedade para que ela se torne capaz de atender às necessidades de todos os seus membros, e não a adaptação da pessoa com deficiência para caber em estruturas que permanecem inalteradas. Quando a instituição se limita a anunciar valores sem rever suas próprias estruturas, o que se produz não é inclusão, mas a aparência dela.

Inclusão até onde for confortável

Há um padrão que se repete: a inclusão é bem recebida enquanto permanece no campo simbólico. Um post em data comemorativa, uma palestra de sensibilização, um selo de diversidade na assinatura de e-mail. Tudo isso é relativamente barato e não exige reorganização de rotinas, redistribuição de recursos ou revisão de critérios de seleção e promoção.

A dificuldade aparece quando a inclusão passa a exigir concessões reais. Um processo seletivo que precisa considerar formas alternativas de avaliação. Um ambiente de trabalho que precisa ser fisicamente reformado. Uma reunião que precisa ser reorganizada para admitir intérprete de Libras ou tempo adicional de processamento. Nesses casos, a resistência, antes disfarçada de boa vontade, frequentemente se revela.

Flávia Piovesan destaca que a igualdade material, prevista na Constituição Federal e na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, não se realiza pela simples ausência de discriminação formal, mas pela adoção de medidas concretas capazes de corrigir desigualdades estruturais. Sem essas medidas, o discurso de inclusão permanece incompleto.

O incômodo como termômetro

Talvez o critério mais honesto para avaliar se uma inclusão é real seja simples: ela sobrevive quando passa a incomodar alguém?

Quando a inclusão exige que uma vaga de estacionamento deixe de ser usada por quem não precisa dela. Quando exige que um evento mude de local porque o anterior não era acessível. Quando exige que uma empresa reveja critérios de produtividade para incluir pessoas com deficiência intelectual ou psicossocial. É justamente nesses pontos de atrito que se descobre se a inclusão declarada é also uma inclusão praticada.

Sidney Madruga observa que as barreiras atitudinais costumam ser as mais resistentes de todas, precisamente porque não dependem de recursos financeiros ou tecnológicos para serem superadas, mas de disposição genuína para mudar posturas e privilégios estabelecidos.

Entre o anúncio e o compromisso

Nenhuma sociedade se transforma apenas com discursos. A Lei Brasileira de Inclusão e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência não foram criadas para inspirar campanhas publicitárias, mas para garantir direitos exigíveis, com consequências jurídicas para o seu descumprimento.

Enquanto a inclusão for tratada como estratégia de comunicação, ela continuará sendo bem-vinda, elogiada e compartilhada. O verdadeiro teste, no entanto, começa exatamente no momento em que ela deixa de ser conveniente e passa a exigir mudança real.

Porque incluir de verdade é, antes de tudo, aceitar ser incomodado por aquilo que ainda não fazemos direito.

  • * Igor Lima é advogado (OAB/RJ), especialista em Direitos Humanos e sustentabilidade, e pessoa com deficiência. Coordenador da coletânea jurídica “Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva”, citada no STJ, TST, STF e presente em instituições como Harvard e Universidade de Coimbra. Autor de artigos publicados em espaços como ABDConst, Future Law e revistas jurídicas nacionais, atua como palestrante em instituições como UERJ, UFRJ, UFF, OAB/RJ e MPRJ. Dedica-se à pesquisa e defesa dos direitos das pessoas com deficiência, com experiência em inclusão, políticas públicas e ESG.   
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