OPINIÃO
- * Por Geraldo Nogueira
Por Geraldo Nogueira*
Você já parou para pensar em quando surgiu a primeira pessoa com deficiência na história da humanidade?
A resposta pode surpreender. Dependendo da forma como olhamos para as narrativas da criação, talvez ela tenha aparecido logo no primeiro capítulo da existência humana.
Segundo o relato bíblico do Gênesis, Deus criou Adão à sua imagem e semelhança e o colocou no Jardim do Éden. Depois, percebendo que o homem não deveria viver sozinho, fez Eva utilizando uma das costelas de Adão.
E aqui começa uma curiosa provocação.
Se Adão perdeu uma de suas costelas, poderíamos dizer, em tom bem-humorado, que ele se tornou a primeira pessoa com deficiência física da história? Evidentemente, trata-se de uma brincadeira interpretativa. O texto bíblico não pretende discutir conceitos médicos ou jurídicos sobre deficiência. Mas essa leitura simbólica nos convida a refletir sobre algo muito importante.
Desde o início das narrativas humanas, a ideia de diferença já estava presente.
A deficiência não é um fenômeno moderno, tampouco uma exceção à condição humana. Ela acompanha a humanidade desde seus primeiros registros, atravessando culturas, religiões, impérios, revoluções e avanços tecnológicos.
Ao longo da história, pessoas com deficiência foram vistas de maneiras muito diferentes. Em alguns períodos, foram acolhidas e respeitadas; em outros, infelizmente, sofreram abandono, segregação e até perseguição. Houve épocas em que eram consideradas incapazes, enquanto hoje se reconhece que a verdadeira incapacidade costuma estar muito mais nas barreiras criadas pela sociedade do que nas características das pessoas.
Essa mudança de perspectiva representa uma das maiores transformações sociais dos últimos séculos.
Atualmente, compreendemos que deficiência não significa ausência de capacidade. Significa apenas que uma pessoa interage com o mundo de maneira diferente e que cabe à sociedade eliminar barreiras arquitetônicas, comunicacionais, tecnológicas, atitudinais e institucionais para garantir igualdade de oportunidades.
Aliás, se continuarmos a brincadeira iniciada com Adão, poderíamos fazer outra pergunta. Será que alguém deixou de reconhecer sua inteligência, sua liderança ou sua humanidade porque lhe faltava uma costela?
Claro que não.
Da mesma forma, uma cadeira de rodas não reduz a competência de um profissional; uma bengala não diminui o talento de um artista; uma prótese não limita a criatividade de um cientista; uma deficiência sensorial não impede alguém de amar, trabalhar, estudar ou transformar o mundo.
A história da humanidade está repleta de pessoas com deficiência que mudaram os rumos da ciência, da política, das artes, do esporte e da cultura. Muitas vezes, o maior obstáculo que enfrentam não é a deficiência em si, mas o preconceito daqueles que insistiam em enxergar apenas limitações.
Talvez a maior lição dessa curiosa reflexão seja que a deficiência nunca foi uma realidade à margem da humanidade. Ela faz parte da própria experiência humana.
Em maior ou menor grau, todos somos diferentes. Todos enfrentamos limitações em algum momento da vida. Envelhecemos, adoecemos, sofremos acidentes, usamos óculos, aparelhos auditivos, bengalas ou outros recursos de apoio. A deficiência, portanto, não é um universo distante. Ela é uma das muitas formas de existir.
Por isso, mais do que perguntar quem foi a primeira pessoa com deficiência da história, talvez a pergunta mais importante seja outra. Quando aprenderemos que uma sociedade verdadeiramente humana é aquela que garante espaço para todos?
A resposta ainda está sendo escrita. E, claro, depende de cada um de nós.
*Geraldo Nogueira é Subsecretário de Políticas Inclusivas do Estado do Rio de Janeiro






