EDITORIAL – Milhões de pessoas com deficiência exercem a parentalidade, mas falta de acessibilidade, pobreza, preconceito e ausência de apoio tornam a tarefa ainda mais difícil
Quando se fala em parentalidade e deficiência, a discussão frequentemente se concentra nos pais de crianças com deficiência. Existe, porém, outra realidade que ainda recebe pouca atenção: a das pessoas com deficiência que são mães e pais.
São pessoas que criam filhos, trabalham, cuidam da casa, acompanham tarefas escolares, levam crianças ao médico, participam de reuniões e enfrentam os mesmos desafios da parentalidade — mas, muitas vezes, precisam fazer tudo isso em uma sociedade que ainda não foi construída pensando nelas.
E os números disponíveis começam a revelar a dimensão dessa realidade. Mais de 4 milhões de pais com deficiência somente nos Estados Unidos
Um dos levantamentos mais recentes e detalhados foi realizado nos Estados Unidos a partir de dados da American Community Survey, que reúne informações de milhões de domicílios.
https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/10442073251368349?utm_source=chatgpt.com
Estudo publicado em 2025 e incorporado à edição de 2026 do Journal of Disability Policy Studies estima que, entre aproximadamente 65,9 milhões de pais norte-americanos, 4,4 milhões possuem alguma deficiência.
Isso significa que aproximadamente 1 em cada 15 pais nos Estados Unidos é uma pessoa com deficiência.
O dado é particularmente importante porque demonstra que a parentalidade de pessoas com deficiência está longe de ser uma situação excepcional.
É uma realidade social que precisa ser reconhecida pelas políticas públicas. E existe um problema ainda maior: a pobreza. O mesmo estudo encontrou uma diferença significativa na situação econômica dessas famílias.
Entre os pais com deficiência pesquisados, 27,3% estavam abaixo da linha de pobreza, contra: 17,74% entre não pais com deficiência; 11,38% entre pais sem deficiência e 9,30% entre pessoas sem deficiência que não eram pais.
Os pesquisadores identificaram ainda que, mesmo depois de considerados outros fatores sociodemográficos, pais com deficiência apresentavam risco de pobreza 1,93 vez maior do que o grupo de referência analisado.
Para uma família com crianças, essa diferença pode significar dificuldades adicionais para moradia, alimentação, transporte, educação, saúde e acesso a serviços.
Um universo que ainda é pouco estudado
A falta de dados não significa que sejam poucos. Ao contrário.
Uma revisão da literatura publicada pelo National Center for Biotechnology Information já estimava 8,4 milhões de adultos com deficiência vivendo com filhos menores de 18 anos nos Estados Unidos, com números que variavam conforme a definição utilizada para identificar a deficiência.
Mais recentemente, pesquisadores continuam alertando para a falta de informações específicas sobre essa população.
Uma publicação da Palgrave Encyclopedia of Disability, de 2026, classifica a parentalidade de pessoas com deficiência como uma área ainda pouco explorada pela pesquisa, apesar de suas implicações para os direitos das pessoas com deficiência, a inclusão social e a dinâmica familiar.
É uma lacuna que precisa ser enfrentada. A dificuldade não é apenas a deficiência
Um dos principais erros na discussão é imaginar que o problema está necessariamente na capacidade da pessoa com deficiência de exercer a maternidade ou a paternidade. Muitas vezes, o problema está no ambiente.
Uma pessoa cadeirante pode ser perfeitamente capaz de cuidar de uma criança, mas pode encontrar dificuldades porque o berço, o trocador, o carrinho, o transporte público ou o espaço da escola não foram pensados para sua utilização.
Uma mãe surda pode exercer plenamente a maternidade, mas enfrentar obstáculos quando médicos, professores ou serviços públicos não oferecem comunicação acessível.
Um pai cego pode cuidar de seu filho, mas pode encontrar barreiras em documentos, aplicativos, escolas e serviços que não são acessíveis.
Uma pessoa com deficiência intelectual pode exercer a parentalidade, mas ainda enfrenta preconceitos e julgamentos sobre sua capacidade de cuidar.
A barreira, portanto, muitas vezes não está na pessoa. Está na falta de acessibilidade e de apoio. A falta de apoio para cuidar dos filhos também pesa
Um levantamento do Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do Congresso dos Estados Unidos, encontrou 3 milhões de pais de crianças de até cinco anos com alguma deficiência e cerca de 2,2 milhões de crianças nessa faixa etária com deficiência.
O relatório também identificou dificuldades enfrentadas tanto por famílias de crianças com deficiência quanto por pais que possuem deficiência para encontrar e utilizar serviços de cuidado infantil.
Entre os problemas relatados estão dificuldades de comunicação com prestadores de serviços, exclusão e comentários depreciativos de funcionários ou de outros pais. Em alguns casos, a dificuldade para encontrar um serviço adequado levou famílias a reduzir a jornada de trabalho, deixar empregos ou mudar de residência.
Isso demonstra que acessibilidade na parentalidade também é uma questão econômica. As principais barreiras enfrentadas pelos pais com deficiência. A literatura e os levantamentos disponíveis permitem identificar alguns dos principais obstáculos:
♿ Acessibilidade física
Calçadas, transporte, escolas, parques, hospitais, creches e espaços de lazer podem não permitir que o pai ou a mãe com deficiência participe em igualdade de condições.
📱 Acessibilidade da comunicação
Informações escolares, médicas, administrativas e relacionadas aos filhos nem sempre estão disponíveis em formatos acessíveis.
💰 Vulnerabilidade econômica
Os dados norte-americanos mostram uma associação importante entre deficiência, parentalidade e maior risco de pobreza.
👨👩👧 Falta de serviços de apoio
Creches, cuidadores, assistência pessoal e outros serviços podem ser insuficientes ou inacessíveis.
🧠 Preconceito e capacitismo
Talvez seja uma das barreiras mais difíceis de combater.
Ainda existem pessoas que questionam a capacidade de alguém com deficiência ser pai ou mãe simplesmente por causa da deficiência.
Esse preconceito pode alcançar inclusive instituições responsáveis pela proteção das crianças.
Casos documentados nos Estados Unidos mostram como sistemas de proteção infantil podem interpretar equivocadamente características relacionadas à deficiência como sinais de incapacidade parental.
⚖️ Risco de questionamento da capacidade parental
A literatura internacional chama atenção para a necessidade de que avaliações de capacidade parental sejam realizadas individualmente, considerando recursos, adaptações e apoios disponíveis — e não simplesmente a existência de uma deficiência.
A sociedade precisa mudar a pergunta Durante muito tempo, a pergunta foi:
“Uma pessoa com deficiência consegue ser pai ou mãe?” Essa talvez seja a pergunta errada.
A pergunta deveria ser: “O que a sociedade precisa oferecer para que uma pessoa com deficiência possa exercer sua parentalidade em igualdade de condições?”
Essa mudança de perspectiva é fundamental. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência reconhece o direito das pessoas com deficiência de constituir família e exercer responsabilidades relacionadas à parentalidade em igualdade de condições. Portanto, a discussão não deveria ser sobre permitir ou não que uma pessoa com deficiência seja pai ou mãe.
Deveria ser sobre garantir os apoios necessários para que ela possa exercer essa função com autonomia, segurança e dignidade.
O desafio também está no Brasil
No Brasil, ainda existe uma importante lacuna de estatísticas nacionais específicas sobre pais e mães com deficiência. Os levantamentos sobre deficiência e os estudos sobre parentalidade existem, mas não formam ainda um retrato nacional suficientemente detalhado dessa população.
Essa ausência de dados dificulta a formulação de políticas públicas. Sem saber quantos são, onde estão, quais deficiências possuem, qual sua situação econômica, quantos filhos têm e quais barreiras enfrentam, o Estado fica limitado para desenvolver políticas específicas.
É preciso conhecer essa população. É preciso ouvi-la. E, principalmente, é preciso incluí-la na formulação das políticas públicas. Pais com deficiência não precisam de pena. Precisam de direitos. A parentalidade de uma pessoa com deficiência não deve ser vista como algo extraordinário, nem como uma história de superação permanente.
Pais com deficiência simplesmente são pais. Precisam de acessibilidade, equipamentos adequados, transporte, serviços de apoio, oportunidades de trabalho, renda, educação inclusiva para seus filhos e respeito.
O desafio não é criar uma sociedade que permita que algumas pessoas com deficiência sejam pais.
É construir uma sociedade na qual nenhuma pessoa seja considerada incapaz de exercer a maternidade ou a paternidade simplesmente porque possui uma deficiência. E talvez esse seja um dos maiores desafios da inclusão no século XXI.
Porque acessibilidade também começa dentro de casa — e o direito de ser pai ou mãe não pode ser limitado pelas barreiras que a sociedade insiste em criar.




