A terapia ocupacional e o direito à independência da pessoa autista

A terapia ocupacional e o direito à independência da pessoa autista - OPINIÃO - * Por Catiuscia Homem

OPINIÃO

  • * Por Catiuscia Homem

Aprender a escolher a própria roupa, organizar a mochila, preparar um lanche, escovar os dentes ou simplesmente conseguir comunicar que algo está incomodando. Para muitas pessoas, essas ações fazem parte da rotina e acontecem quase automaticamente. Para uma pessoa autista, porém, algumas dessas tarefas podem exigir planejamento, adaptação e suporte.

É nesse espaço entre aquilo que a pessoa quer fazer e aquilo que consegue realizar sozinha que a terapia ocupacional pode fazer uma diferença importante.

Falar em autonomia, no autismo, não significa esperar que a pessoa faça tudo sem ajuda. Autonomia é ter condições de participar da própria vida, fazer escolhas, compreender o que acontece ao seu redor e utilizar os suportes necessários para realizar atividades com o máximo possível de independência.

As dificuldades encontradas no dia a dia nem sempre estão relacionadas à capacidade intelectual. Diferenças no processamento sensorial, na comunicação, na flexibilidade cognitiva e nas funções executivas podem tornar tarefas aparentemente simples muito mais complexas.

Uma criança pode saber que precisa escovar os dentes, mas não conseguir organizar mentalmente a sequência necessária para realizar a tarefa. Um adolescente pode compreender uma atividade escolar, mas ter dificuldade para iniciá-la ou para lidar com uma mudança inesperada. Um adulto pode ter excelente desempenho profissional e, ao mesmo tempo, precisar de estratégias para organizar a rotina doméstica.

Por isso, na terapia ocupacional, não olhamos apenas para a habilidade que está faltando. Procuramos entender qual barreira está impedindo aquela pessoa de participar da atividade.

Quando o ambiente também precisa mudar

Uma das abordagens que podem contribuir para esse processo é o TEACCH®️, desenvolvido na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e fundamentado no Ensino Estruturado.

A proposta utiliza recursos como a organização do ambiente, rotinas previsíveis, informações visuais, estruturação das tarefas e adaptações de acordo com as características individuais da pessoa autista. 

Na prática, a lógica é bastante simples: se uma tarefa é difícil de compreender, podemos torná-la mais clara.

Imagine, por exemplo, uma criança que precisa se preparar para ir à escola. Em vez de depender apenas de comandos verbais, levantar, escovar os dentes, vestir-se, tomar café e pegar a mochila, podemos utilizar uma sequência visual que mostre cada etapa da rotina.

A criança consegue visualizar o que precisa fazer, qual é a próxima etapa e quando a atividade termina.

Isso não significa “robotizar” a criança ou ensiná-la a obedecer mecanicamente. É justamente o contrário. Ao tornar o ambiente mais previsível e a informação mais acessível, diminuímos a necessidade de ajuda constante e criamos condições para que ela faça mais coisas por conta própria.

O TEACCH também pode ser utilizado para organizar fisicamente os espaços. Definir onde uma atividade começa, onde os materiais ficam e onde ela termina pode facilitar a compreensão da tarefa e reduzir distrações.

Uma atividade também pode ser estruturada para responder a perguntas importantes: O que preciso fazer? Quanto preciso fazer? Como vou saber que terminei? O que acontece depois?

Para algumas pessoas autistas, ter essas respostas de forma visual e concreta pode representar uma diferença significativa.

Da clínica para a vida cotidiana

Mas existe um cuidado fundamental: nenhuma estratégia deve ser aplicada como uma receita pronta.

Na terapia ocupacional, é preciso considerar o perfil de cada pessoa, suas habilidades, dificuldades, interesses, forma de comunicação, processamento sensorial e contexto familiar, escolar e social.

O objetivo também não é ensinar uma habilidade apenas dentro do consultório. É fazer com que ela tenha utilidade na vida real.

De que adianta uma criança organizar objetos durante uma sessão se não consegue organizar a própria mochila? Ou aprender uma sequência de higiene no consultório se não consegue utilizá-la em casa?

Por isso, trabalhamos para que as habilidades sejam transferidas para os ambientes onde a pessoa realmente vive.

É nesse ponto que recursos visuais podem ser tão importantes. Agendas, imagens, listas, sequências de tarefas, símbolos e organização dos espaços podem funcionar como ferramentas de acessibilidade.

Para algumas pessoas, a informação visual é mais concreta e previsível do que uma instrução exclusivamente verbal.

O mesmo raciocínio vale para a comunicação. A fala não é a única maneira de uma pessoa se comunicar. Recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa, como pranchas, símbolos e dispositivos eletrônicos, podem permitir que pessoas com pouca ou nenhuma fala expressem desejos, necessidades, sentimentos e escolhas.

Comunicação não é um prêmio para quem desenvolveu a fala. É um direito.

Independência não é fazer tudo sozinho

Talvez esse seja um dos conceitos mais importantes quando falamos em autismo: precisar de suporte não significa ser menos autônomo.

Uma pessoa que utiliza uma agenda visual, um dispositivo de comunicação, adaptações sensoriais ou ajuda para determinada tarefa não deixa de ser independente.

Na verdade, autonomia também significa saber utilizar os recursos disponíveis para participar da própria vida.

É preciso ainda evitar que a busca por independência seja confundida com uma tentativa de fazer com que pessoas autistas se comportem como pessoas neurotípicas.

A terapia ocupacional não deve trabalhar para apagar características do autismo. Deve trabalhar para reduzir barreiras e ampliar possibilidades.

Escolher uma roupa. Preparar uma refeição. Organizar os próprios objetos. Pedir ajuda. Comunicar uma dor. Saber o que acontecerá em seguida. Tolerar uma mudança de rotina. Utilizar um transporte. Participar de uma atividade social.

Cada uma dessas conquistas pode representar um passo importante em direção a uma vida com mais participação e qualidade.

Por isso, quando pensamos em autonomia, talvez precisemos mudar a pergunta.

Em vez de perguntar por que aquela pessoa não consegue fazer determinada tarefa, precisamos perguntar: o que podemos modificar no ambiente, na atividade ou na forma de ensinar para que ela consiga participar?

O TEACCH, os recursos visuais, a Comunicação Aumentativa e Alternativa e as estratégias utilizadas pela terapia ocupacional não são soluções universais. São ferramentas que, quando escolhidas de maneira individualizada, podem ajudar a tornar o mundo mais compreensível e acessível.

Independência não é ausência de suporte. É ter acesso ao suporte necessário para exercer escolhas.

E garantir que uma pessoa autista possa escolher, comunicar, participar e realizar atividades do cotidiano com o máximo possível de autonomia não é um favor. É respeitar seu direito de viver a própria vida.

*Catiuscia Homem é terapeuta ocupacional, educadora especial e CEO da Bloom Centro Integrado de Autismo, com atuação voltada à autonomia, funcionalidade e participação de pessoas autistas.

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