Entre vídeos de TikTok, reels e listas de sintomas, especialistas alertam para o crescimento dos autodiagnósticos e para o risco de transformar comportamentos comuns em transtornos
Você se distrai facilmente? Procrastina tarefas? Perde objetos com frequência? Tem dificuldade para manter o foco em atividades longas? Se respondeu “sim” para algumas dessas perguntas, talvez já tenha visto alguém afirmar nas redes sociais que você pode ter TDAH.
Nos últimos anos, conteúdos sobre saúde mental passaram a ocupar espaço cada vez maior em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. Ao mesmo tempo, aumentou significativamente o interesse da população por temas relacionados ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), especialmente entre adultos.
Mas, junto com a ampliação do debate, surgiu um fenômeno que preocupa especialistas: o crescimento dos autodiagnósticos.
Segundo o psiquiatra Dr. Luís Carlos Murari, nunca tantas pessoas chegaram ao consultório acreditando já saber exatamente qual é o seu diagnóstico.
“É cada vez mais comum receber pacientes que dizem: ‘Doutor, eu tenho certeza de que tenho TDAH’. Muitas vezes essa conclusão foi construída a partir de vídeos curtos, relatos de influenciadores ou listas genéricas de sintomas encontradas na internet.”
O problema é que identificar-se com alguns comportamentos não significa necessariamente possuir um transtorno neurobiológico.
Quando a informação ajuda; e quando atrapalha
O aumento da informação sobre saúde mental trouxe benefícios importantes. Mais pessoas passaram a reconhecer sinais de sofrimento emocional, buscar ajuda e falar abertamente sobre temas que antes eram cercados por preconceito.
Por outro lado, a popularização do assunto também criou um ambiente onde experiências humanas comuns passaram a ser frequentemente interpretadas como sinais de transtornos mentais.
A dificuldade de concentração, por exemplo, pode estar relacionada a diversos fatores: falta de sono, estresse, ansiedade, excesso de telas, sobrecarga profissional, problemas emocionais, rotina desorganizada.
E até mesmo hábitos de consumo digital cada vez mais acelerados.
“Vivemos uma época em que somos interrompidos o tempo inteiro. Recebemos notificações constantemente, alternamos entre várias telas e consumimos conteúdos cada vez mais rápidos. Isso afeta a capacidade de atenção de qualquer pessoa”, explica Murari.
O que é sintoma e o que é transtorno?
Sentir-se distraído em alguns momentos não significa ter TDAH. Esquecer compromissos ocasionalmente também não. Da mesma forma que ficar triste não significa depressão e sentir ansiedade antes de uma apresentação não caracteriza necessariamente um transtorno de ansiedade.
O diagnóstico de TDAH exige uma avaliação cuidadosa, considerando histórico de vida, impacto funcional, frequência dos sintomas e outros critérios clínicos.
O que preocupa os especialistas é que, em alguns casos, a busca por respostas rápidas pode levar pessoas a ignorarem outras causas para aquilo que estão sentindo.
A geração que perdeu a capacidade de se concentrar?
Outro aspecto que chama atenção é a transformação da própria relação da sociedade com a atenção.
Nunca fomos tão estimulados. Nunca recebemos tantas informações ao mesmo tempo. Nunca passamos tantas horas diante de telas.
Muitos comportamentos que hoje despertam suspeitas de TDAH podem estar relacionados a um fenômeno mais amplo: a dificuldade crescente de manter foco em um ambiente construído para disputar nossa atenção a cada segundo.
“O fato de uma pessoa ter dificuldade para se concentrar não significa automaticamente que ela tenha TDAH. Precisamos entender o contexto, a rotina e a história daquela pessoa antes de transformar um sintoma em diagnóstico”, afirma o psiquiatra.
O risco dos diagnósticos apressados
O alerta não vale apenas para os autodiagnósticos. Especialistas também chamam atenção para a necessidade de avaliações criteriosas. A pressão por respostas rápidas, somada à alta demanda por atendimento em saúde mental, pode favorecer processos diagnósticos simplificados e conclusões precipitadas.
Isso é especialmente importante porque diferentes condições podem apresentar sintomas semelhantes. Ansiedade, depressão, privação de sono, burnout e até situações de estresse prolongado podem afetar atenção, memória e desempenho cognitivo.
Por isso, reduzir uma pessoa a um único rótulo pode significar deixar de compreender aquilo que realmente está acontecendo.
O verdadeiro desafio
Para Murari, a discussão não deveria ser sobre desacreditar diagnósticos, mas sobre aprimorá-los.
“O TDAH existe, é um transtorno sério e pode causar impactos significativos na vida das pessoas. Mas nem toda distração é TDAH, assim como nem todo sofrimento emocional precisa ser transformado imediatamente em um diagnóstico.”
Em uma era marcada por vídeos de poucos segundos e respostas instantâneas, talvez o maior desafio seja justamente aquele que as redes sociais não conseguem oferecer: tempo para ouvir, investigar e compreender a complexidade de cada indivíduo.





