IBGE confirma desigualdades no acesso ao trabalho, educação, renda e moradia entre pessoas com deficiência

IBGE confirma desigualdades no acesso ao trabalho, educação, renda e moradia entre pessoas com deficiência

Segunda edição de estudo nacional mostra que pessoas com deficiência enfrentam taxas mais elevadas de analfabetismo, menor participação no mercado de trabalho e renda inferior à população sem deficiência

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou nesta sexta-feira (18) a segunda edição do estudo “Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil”, reunindo indicadores sobre educação, trabalho, renda, moradia, transporte, participação social e outros aspectos das condições de vida da população com deficiência.

Os dados têm como principal referência o Censo Demográfico de 2022, que identificou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, aproximadamente 7,3% da população. O levantamento também utiliza informações de outras bases oficiais, incluindo Censo Escolar, Censo da Educação Superior, dados do Tribunal Superior Eleitoral e outros índices brasileiros.

Deficiências no Brasil

O IBGE define que entre as pessoas com deficiência, a visual atinge 4,0% da população. Em seguida vêm as dificuldades para caminhar ou subir degraus (2,6%) e para pegar objetos pequenos (2,0%). Dificuldades associadas a funções mentais e a mais de uma limitação simultânea aparecem empatadas, com 1,4% cada, e a dificuldade para ouvir atinge 1,3% da população.

Educação

Entre os indicadores apresentados, um dos destaques está na educação. Segundo os dados divulgados pelo IBGE, 12,2% das pessoas com deficiência entre 15 e 29 anos eram analfabetas, enquanto entre os jovens sem deficiência a taxa era de aproximadamente 1%.

A diferença é ainda maior entre pessoas com limitações relacionadas às funções mentais ou intelectuais, grupo em que a taxa de analfabetismo ultrapassa 40%, segundo a cobertura do estudo.

Os dados também apontam diferenças relacionadas à frequência e às condições de acesso à educação, colocando em evidência a distância entre a matrícula escolar e a garantia de condições adequadas para a permanência e a aprendizagem dos estudantes com deficiência.

Mercado de trabalho e renda

No mercado de trabalho, a diferença também aparece de forma expressiva.

Em 2022, 29% das pessoas com deficiência com 14 anos ou mais estavam ocupadas, contra 55,8% das pessoas sem deficiência. A diferença foi de 26,8 pontos percentuais. Entre as pessoas com deficiência profunda, o nível de ocupação caiu para 21,2%.

A desigualdade também aparece na renda. O rendimento médio mensal do trabalhador com deficiência foi de R$ 2.053, enquanto o trabalhador sem deficiência recebeu, em média, R$ 2.890.

Outro dado apresentado pelo levantamento mostra que as pessoas com deficiência ocupavam apenas 2,5% dos cargos gerenciais. A participação na contribuição previdenciária também era menor: 57,9%, contra 67,7% entre trabalhadores sem deficiência.

Entre as mulheres com deficiência, o nível de ocupação era de 24,4%, abaixo dos 35,4% registrados entre homens com deficiência.

Pobreza

Os indicadores também mostram diferenças socioeconômicas importantes. Em 2022, 33,2% das pessoas com deficiência estavam abaixo da linha de pobreza. Entre crianças com deficiência, o percentual chegava a 60,9%, contra 52,5% entre crianças sem deficiência.

Nos domicílios com pessoas com deficiência, o trabalho representava 55,7% da renda total, enquanto aposentadorias, pensões e benefícios sociais respondiam por 44,3%. Nos domicílios sem pessoas com deficiência, o trabalho correspondia a 78,4% da renda.

Moradia e acessibilidade

O levantamento também identifica diferenças nas condições de moradia. Segundo os dados divulgados pelo IBGE, 56,6% das pessoas com deficiência tinham acesso simultâneo a serviços de saneamento básico, ante 60,2% da população sem deficiência.

A acessibilidade no entorno dos domicílios também aparece entre os indicadores analisados. Apenas 12,9% dos domicílios onde vivem pessoas com deficiência contavam com rampas nas proximidades, de acordo com os dados destacados na divulgação.

Participação política

O estudo também reúne informações sobre participação política. Dados referentes às eleições municipais mostram redução na presença de pessoas com deficiência entre vereadores e prefeitos eleitos entre 2020 e 2024.

Um retrato que amplia o debate sobre inclusão

A segunda edição do estudo do IBGE apresenta um retrato multidimensional das condições de vida das pessoas com deficiência no país, permitindo observar as diferenças em áreas como educação, trabalho, renda, moradia, acessibilidade e participação social.

Os números divulgados nesta sexta-feira também chegam em meio a questionamentos apresentados pela ANAPcD sobre diferenças entre estatísticas anteriores do próprio IBGE. A entidade havia solicitado esclarecimentos sobre a diferença entre os 18,6 milhões de pessoas com deficiência apontados pela PNAD 2022 e os 14,4 milhões registrados pelo Censo 2022, além da forma como os 2,4 milhões de pessoas autistas identificadas no Censo são contabilizados. O Diário PcD também procurou o IBGE sobre esses questionamentos e, até o fechamento da reportagem anterior, não havia recebido resposta do Instituto.

A nova publicação do IBGE, portanto, acrescenta novos indicadores ao debate sobre as condições de vida da população com deficiência no Brasil, enquanto permanecem em acompanhamento questões metodológicas e estatísticas apresentadas anteriormente pela sociedade civil.

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